quinta-feira, 2 de julho de 2026

Bilhete postal ilustrado PORTO – Claustros da Igreja da Sé (PT-BPI-1903-TCV-PORT-PAHPS)

 


1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado internacionalmente
  • Origem e destino: Porto (Portugal) → Erquy (Côtes-du-Nord, França)
  • Data(s):
    • Data manuscrita: 13.10.1903
    • Data de expedição: 15.10.1903 (Porto Central, 3.ª Secção)
    • Carimbo de chegada: 19.10.1903 (St. Quay-Portrieux, França)
  • Emissão filatélica associada:
    • D. Carlos I (1895), tipo corrente (Mouchon), 25 réis
  • Autor / Remetente / Destinatário:
    • Remetente: “J. Fournier” (identificação provável por análise caligráfica)
    • Destinatário: Mademoiselle Hélène Guillou
    • Local de destino: Erquy, Côtes-du-Nord, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

Suporte e impressão

  • Cartão postal ilustrado em cartolina
  • Impressão a preto e branco por processo fotomecânico (fototipia)

Imagem (anverso)

  • Vista dos Claustros da Sé do Porto, representando:

    • arcadas ogivais
    • elementos decorativos manuelinos
    • composição arquitetónica em perspetiva interior
  • Legenda:

    “PORTO – Claustros da Igreja da Sé”

  • Editor:

    Arnaldo Soares – Registrado (Porto)


Selos

  • Valor facial: 25 réis
  • Emissão: D. Carlos I (1895), tipo corrente
  • Cor: vermelha
  • Particularidade:
    • selo aposto no anverso, prática comum anterior à normalização de 1906

Carimbos

Obliteração principal

  • Tipo: datador hexagonal
  • Local: Porto Central – 3.ª Secção
  • Data: 15.10.1903
  • Aplicação sobre o selo

Obliteração complementar

  • Marca no verso:
    • no local teórico da franquia
    • reforçando a anulação

Chegada

  • Local: St. Quay-Portrieux (Côtes-du-Nord)
  • Data: 19.10.1903
  • Tipo: carimbo circular
  • Bem legível

Outros elementos postais

  • Estrutura de bilhete-postal não dividido (verso reservado à correspondência e endereço)
  • Escrita manuscrita no anverso, compatível com práticas pré-1906

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

3.1 Percurso postal

Sequência documentada:

  • Porto (15.10.1903)
    → transporte internacional
    → chegada a St. Quay-Portrieux (19.10.1903)

  • Tempo de trânsito: 4 dias
    → compatível com rede postal e marítima da UPU


3.2 Enquadramento tarifário

  • Franquia: 25 réis
  • Correspondente à tarifa internacional de carta simples

Interpretação:

  • Apesar de se tratar de um bilhete-postal, foi aplicada: → tarifa superior à do postal simples

  • Motivo provável (com base na evidência):

    • utilização do anverso para escrita
    • possível reclassificação como correspondência epistolar

3.3 Contexto postal

  • Período anterior à padronização do verso dividido (1906 em Portugal)
  • Prática comum:
    • selo no anverso
    • coexistência de escrita e imagem

3.4 Contexto histórico e cultural

  • Inserção plena na Belle Époque postal europeia
  • Intensificação da cartofilia e do turismo cultural
  • A Sé do Porto surge como:
    • elemento identitário do património nacional
    • motivo de circulação visual e simbólica

3.5 Particularidades relevantes

  • Uso de tarifa de carta em suporte de postal
  • Obli­tação dupla (anverso + verso)
  • Data manuscrita anterior à expedição
  • Interligação entre centros urbanos (Porto ↔ Bretanha francesa)
  • Forte componente arquitetónica patrimonial

4. TRANSCRIÇÃO (PARCIAL)

Verso (morada)

Mademoiselle Hélène Guillou
Grève … [texto parcialmente ilegível]
Côtes-du-Nord
France


Anverso (texto manuscrito)

(parcialmente ilegível — leitura limitada)

[texto manuscrito em francês]
Assinatura: “J. Fournier” (leitura provável)


5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Factos

  • Postal ilustrado internacional Porto–França
  • Franquia de 25 réis
  • Carimbo hexagonal de Porto Central
  • Carimbo de chegada completo
  • Selo no anverso
  • Identificação provável do remetente

Interpretação

Nível postal

  • Uso híbrido: → postal tratado como carta

  • Demonstra:

    • flexibilidade prática das normas
    • adaptação ao conteúdo escrito

Nível material

  • A colocação do selo no anverso:
    • segue convenção pré-1906
    • reforça a integração imagem/comunicação

Nível sociocultural

  • A correspondência evidencia:

    • redes transnacionais de sociabilidade
    • circulação de viajantes entre Portugal e França
  • A relação Fournier–Guillou sugere:

    • contacto pessoal inserido em redes sociais burguesas ou culturais

Síntese interpretativa

A peça constitui um exemplo claro de:

  • transição funcional do bilhete-postal
  • hibridização entre imagem e comunicação epistolar
  • circulação cultural europeia na Belle Époque

Hipóteses a validar

  • Identificação completa do remetente (J. Fournier)
  • Relação social entre emissor e destinatária
  • Conteúdo integral da mensagem manuscrita

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

Interesse filatélico

Elevado, pela conjugação de:

  • tarifa não standard
  • obliteração hexagonal
  • circulação internacional completa

Interesse curatorial

Muito elevado, destacando:

  • contexto Belle Époque
  • redes de sociabilidade transnacional
  • relação entre imagem, escrita e mobilidade

Raridade

  • Emissão comum
  • Valor acrescido pelo uso postal específico e contexto interpretativo

Potencial de estudo

Muito relevante para:

  • história postal internacional
  • cartofilia portuguesa inicial
  • psicossociologia postal
  • redes sociais pré‑Primeira Guerra

7. REFERÊNCIAS (SUGERIDAS)

  • Regulamentos da União Postal Universal (c. 1900–1905)
  • Catálogos Mundifil / Afinsa – D. Carlos I
  • Estudos sobre cartofilia europeia e turismo cultural (Belle Époque)

8. NOTAS METODOLÓGICAS

  • Identificação do remetente baseada em leitura paleográfica (não confirmada documentalmente)
  • Transcrição parcial devido à legibilidade limitada do manuscrito
  • Interpretação tarifária fundamentada na prática postal conhecida
  • Distinção mantida entre evidência observável e interpretação

🔎 Nota curatorial final

Esta peça constitui um testemunho exemplar da cartofilia da Belle Époque, onde o bilhete-postal opera simultaneamente como:

  • suporte iconográfico (património),
  • meio epistolar (comunicação pessoal),
  • e instrumento de circulação cultural internacional.