A presente ficha de catálogo analisa uma carta pré‑filatélica expedida do Rio de Janeiro para o Porto em 1852. Para além das suas características postais, a peça oferece um testemunho relevante das redes de comunicação atlântica e das práticas sanitárias associadas às epidemias do século XIX.
1. IDENTIFICAÇÃO GERAL
- Tipo de peça: Carta completa (sobrescrito circulado) pré‑filatélica
- Origem e destino: Rio de Janeiro (Brasil) → Porto (Portugal), com trânsito em Lisboa
- Data(s):
- Partida: 19 de Abril de 1852
- Trânsito em Lisboa: 10 de Maio de 1852
- Chegada ao Porto: 13 de Maio de 1852
- Emissão filatélica associada: Não aplicável (período pré‑filatélico)
- Autor / Remetente / Destinatário:
- Destinatário: Sr. Vicente José de Carvalho Vieira
2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA
- Suporte: Carta dobrada (sem envelope separado), papel manuscrito, apresentando cortes e manchas de desinfecção
- Selos: Inexistentes
- Carimbos e marcas postais:
- Marca de imposto postal (“Lei do Selo”): “LEY DE 20 … 35 Rs.” em tinta castanho‑violeta (tipologia LSB Tipo I)
- Marca “P. BRIT.” em azul (LSB-PB2), indicativa de encaminhamento por via britânica
- Indicação manuscrita “720” em azul (porte tipo I)
- Outros elementos postais:
- Anotação manuscrita “80”, associada a porte territorial
- Cortes de desinfecção claramente visíveis
- Vestígios de manipulação administrativa (marcas manuscritas adicionais)
3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA
Percurso postal:
Carta expedida no Rio de Janeiro, transportada por via marítima (provavelmente em mala britânica), com entrada em Lisboa e posterior reexpedição para o Porto.Enquadramento tarifário:
- Porte “720” réis atribuído em Lisboa
- Acréscimo de “80” réis para distribuição interna (total: 800 réis)
- Aplicação do imposto da Lei do Selo: 35 réis
(Interpretação coerente com a legenda e com práticas tarifárias conhecidas, carecendo de validação regulamentar direta.)
Contexto histórico:
Inserida na fase final do período pré‑filatélico português, a peça testemunha o funcionamento das rotas transatlânticas pós‑independência do Brasil, nas quais a intermediação britânica desempenhava papel central.Particularidades relevantes:
- Conjugação de marca fiscal e marca de encaminhamento internacional
- Estrutura tarifária composta (intercontinental + territorial)
- Evidência material de desinfecção postal
4. TRANSCRIÇÃO
“Sr. Vicente José de Carvalho Vieira
Porto”
5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO
A carta constitui um exemplo significativo da articulação entre sistemas postais nacionais e redes internacionais privadas no Atlântico oitocentista. A marca “P. BRIT.” sugere integração em circuitos britânicos de transporte postal, reconhecidos pela sua regularidade.
A estrutura tarifária (720 + 80) evidencia a dupla incidência de custos — transporte marítimo e distribuição interna — aplicada no ponto de entrada em território português. Esta prática é consistente com o modelo administrativo da época, embora a decomposição exata de valores deva ser confirmada por fontes regulamentares.
Do ponto de vista histórico-social, a identificação do destinatário permite contextualizar a peça:
Vicente José de Carvalho Vieira foi um cidadão abastado e proprietário no Porto, cuja memória se encontra associada, designadamente, à arquitetura funerária do Cemitério da Lapa.
Esta informação reforça o estatuto socioeconómico do destinatário e sugere a integração da correspondência em redes comerciais ou patrimoniais transatlânticas.
6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL
- Interesse: Elevado, pela convergência de dimensões postal, fiscal e sanitária
- Raridade: Média a elevada para peças com percurso completo, múltiplas marcas e desinfecção
- Proveniência:
- Ex‑coleção Félix da Costa
- Adquirida em Frazão Auctions
- Potencial expositivo: Muito elevado (História postal luso‑brasileira; correio marítimo; desinfecção postal; fiscalidade)
