Um testemunho das redes de influência e da administração do Escaler do Governador no Algarve de D. Maria I.
1. IDENTIFICAÇÃO GERAL
| Campo | Informação |
|---|---|
| Tipo de peça | Carta pré-filatélica manuscrita com sobrescrito integral |
| Título normalizado | Carta Pré‑Filatélica de Frei João Crisóstomo para o 2.º Visconde de Mesquitela sobre o Escaler do Governador (1781) |
| Origem | Carmo de Tavira, Reino do Algarve, Portugal |
| Destino | D. José Francisco da Costa e Sousa e Albuquerque |
| Data da carta | 2 de Março de 1781 |
| Data postal | Não observável |
| Remetente | Frei João Crisóstomo |
| Destinatário | D. José Francisco da Costa e Sousa e Albuquerque (1740–1802), 2.º Visconde de Mesquitela, Armador‑Mor e Armeiro‑Mor da Casa Real, Brigadeiro dos Reais Exércitos |
| Emissão filatélica associada | Não aplicável (período pré‑filatélico) |
| Língua | Português |
| Natureza documental | Correspondência particular com conteúdo administrativo, político e de recomendação |
2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA
Caracterização do suporte
Carta manuscrita em papel vergé dobrado, utilizada simultaneamente como folha de texto e sobrescrito, segundo o modelo corrente da correspondência portuguesa setecentista.
A peça conserva:
- folha manuscrita original;
- sobrescrito original;
- dobras de circulação;
- endereçamento manuscrito integral.
A escrita foi executada com tinta ferrogálica castanho-escura.
A assinatura autógrafa de Frei João Crisóstomo encontra-se no final do texto.
Selos
Não aplicável.
A carta antecede em mais de meio século a introdução dos selos adesivos em Portugal.
Carimbos
Tipologia
Não observados.
Local
Não observável.
Data
Não observável.
Cor
Não aplicável.
Legibilidade
Não aplicável.
Outros elementos postais
Endereçamento
O sobrescrito apresenta a seguinte inscrição:
“Ao Ill.mo e Ex.mo Senhor D. Joze Francisco da Costa e Souza [...] Armador Mor de Sua Mag.de Fidelíssima...”
Porte
Não observável.
Franquia
Não aplicável.
Marcas postais
Não observadas.
Taxações
Não observadas.
Censuras
Não aplicável.
Ambulantes ferroviários
Não aplicável.
Marcas de desinfecção
Não observadas.
Lacre
Não visível nas imagens analisadas.
3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA
Interpretação do percurso postal
A carta foi redigida no Carmo de Tavira em 2 de Março de 1781.
A ausência de marcas postais impede a reconstrução precisa do seu trajeto.
É plausível que tenha circulado através das ligações terrestres e marítimas que uniam o Algarve à Corte em Lisboa, mas tal percurso não pode ser demonstrado apenas pela peça.
Contexto histórico
O documento insere-se no reinado de D. Maria I e testemunha o funcionamento das redes de influência e patronagem características do Antigo Regime português.
A carta demonstra a intervenção de figuras religiosas e nobiliárquicas em processos de recomendação relacionados com cargos dependentes da administração régia.
Contexto político-administrativo
O remetente solicita a intervenção de D. José Francisco da Costa e Sousa junto de um “novo governador” para garantir a permanência de um indivíduo identificado como “Patrão Francisco” num cargo associado ao Escaler.
O texto evidencia o funcionamento de redes de proteção política baseadas em favores, recomendações e patrocínios.
O Escaler do Governador
A referência ao Escaler constitui o elemento historicamente mais relevante da carta.
Documentação complementar indica que o Escaler era uma embarcação oficial ligada ao Governador das Armas do Reino do Algarve, utilizada para deslocações institucionais e serviço oficial na área de Tavira.
Existem registos históricos da existência de um “Escaler do Rei” ou “Escaler do Governador” sediado em Tavira, cuja manutenção era suportada por receitas públicas locais.
Quando Frei João Crisóstomo escreve:
“pedir por elle ao novo governador para o conservar no Escaler”
o documento parece referir-se à manutenção de um cargo associado a essa estrutura náutica oficial.
Contexto local
Após o terramoto de 1755, Tavira assumiu papel relevante na governação administrativa e militar do Algarve.
A carta constitui testemunho da ligação entre as elites locais algarvias e os círculos de poder da Corte.
Intervenientes identificados
Intervenientes diretos
- Frei João Crisóstomo (remetente).
- D. José Francisco da Costa e Sousa e Albuquerque (destinatário).
Intervenientes indiretos
- Senhora Armeira‑Mor.
- Patrão Francisco.
- Novo Governador.
- Alvarenga.
4. TRANSCRIÇÃO
Transcrição diplomática do fecho
D.ˢ gde a V.ᵃ Ex.ᵃ m.ˢ an.ˢ Carmo de Tavira 2 de M.ᶜᵒ de 1781. De V.ᵃ Ex.ᵃ S.ᵒ m.ᵗᵒ v.ᵒʳ e obrig.ᵒ. Fr. João ChrysoStomo.
Leitura desabreviada
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos. Carmo de Tavira, 2 de Março de 1781. De Vossa Excelência, seu muito venerador e obrigado. Frei João Crisóstomo.
5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO
Factos observáveis
✅ A carta foi escrita em Carmo de Tavira em 2 de Março de 1781.
✅ O remetente é Frei João Crisóstomo.
✅ O destinatário é D. José Francisco da Costa e Sousa, identificado no sobrescrito como Armador‑Mor de Sua Majestade Fidelíssima.
✅ O texto menciona um Patrão Francisco, um novo governador e um indivíduo identificado como Alvarenga.
✅ O texto refere explicitamente um Escaler.
Interpretações fundamentadas
⚠️ A carta documenta um mecanismo de recomendação política típico do Antigo Regime.
⚠️ O cargo do Patrão Francisco parece depender da confiança do governador e poderá estar relacionado com o Escaler oficial da governação algarvia.
⚠️ O documento constitui evidência relevante da articulação entre Tavira, o Paço e a alta administração portuguesa.
Aspetos que requerem validação adicional
⚠️ Identificação completa do Patrão Francisco.
⚠️ Identificação definitiva do “novo governador”.
⚠️ Reconstrução do percurso postal.
⚠️ Existência de lacre ou marcas postais no verso não analisado.
⚠️ Determinação de filigrana e identificação do fabricante do papel.
6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL
Interesse filatélico
Médio.
Peça relevante para pré-filatelia portuguesa.
Interesse marcofílico
Baixo a médio.
Ausência de marcas postais observáveis.
Interesse histórico-postal
Muito elevado.
Documenta circulação postal pré‑filatélica entre Algarve e círculos da Corte.
Interesse cartófilo
Não aplicável.
Interesse de filatelia social
Excecional.
Permite estudar redes de influência, proteção e recomendação.
Interesse documental
Excecional.
Fonte primária para história regional, administrativa e marítima.
Interesse expositivo
Excecional.
Adequada para exposições de:
- História Postal Portuguesa;
- Algarve Setecentista;
- Tavira Administrativa;
- História Marítima;
- Filatelia Social;
- Redes de Poder do Antigo Regime.
Grau de raridade
Não quantificável sem estudo comparativo.
Contudo, a conjugação de:
- carta completa;
- sobrescrito original;
- destinatário de elevada relevância política;
- referência ao Escaler do Governador;
confere-lhe interesse muito significativo.
Potencial para coleção
Muito elevado.
Potencial para exposição
Excecional.
Potencial para publicação
Excecional.
Potencial de investigação futura
Excecional.
7. SUGESTÃO DE TEXT ALT
Carta pré‑filatélica manuscrita datada de 2 de março de 1781, enviada de Carmo de Tavira para D. José Francisco da Costa e Sousa e Albuquerque, 2.º Visconde de Mesquitela e Armador‑Mor da Casa Real. O documento aborda pedidos de recomendação política relacionados com a manutenção de um cargo associado ao Escaler do Governador do Algarve e testemunha redes de influência entre o Algarve e a Corte portuguesa durante o reinado de D. Maria I. Conserva texto manuscrito integral e sobrescrito original. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.
8. CODIFICAÇÃO
Código principal
PT-CPR-1781-TAV-MESQUITELA-ESCALER
Tabela de descodificação
| Bloco | Código | Significado |
|---|---|---|
| País | PT | Portugal |
| Tipo | CPR | Carta Pré‑Filatélica |
| Ano | 1781 | Data da carta |
| Localidade | TAV | Tavira |
| Destinatário | MESQUITELA | 2.º Visconde de Mesquitela |
| Tema | ESCALER | Escaler do Governador do Algarve |
9. REFERÊNCIAS
Fontes Primárias
Carta de Frei João Crisóstomo para D. José Francisco da Costa e Sousa e Albuquerque, Carmo de Tavira, 2 de Março de 1781.
Sobrescrito original da mesma correspondência.
Fontes Arquivísticas
Academia das Ciências de Lisboa. Processo: José Francisco da Costa e Sousa e Albuquerque (1740–1802), 2.º Visconde de Mesquitela, Armeiro e Armador‑Mor e Brigadeiro dos Reais Exércitos.
Bibliografia e enquadramento
Estudos sobre Tavira enquanto sede da governação do Reino do Algarve e sobre o Escaler do Governador.
10. NOTAS METODOLÓGICAS
✅ Evidência documental
- Data da carta.
- Local de emissão.
- Remetente.
- Destinatário.
- Conteúdo integral.
- Referência ao Escaler.
- Referência ao novo governador.
- Sobrescrito original.
⚠️ Interpretação histórica
- Funções exatas do Patrão Francisco.
- Identidade do novo governador.
- Percurso postal seguido pela carta.
- Relação funcional precisa entre o Escaler e a governação algarvia neste caso concreto.
Limitações da análise
- Não foi analisado o verso integral da peça.
- Não foi efetuado estudo de filigrana.
- Não existem marcas postais observáveis.
- Não existe indicação de porte.
- Não existe confirmação documental direta do percurso.
Nível de certeza
| Elemento | Grau de certeza |
|---|---|
| Datação | Muito elevado |
| Local de origem | Muito elevado |
| Autoria | Muito elevado |
| Identificação do destinatário | Muito elevado |
| Ligação ao Escaler | Elevado |
| Interpretação administrativa | Elevado |
| Reconstrução do percurso postal | Baixo |
Síntese Curatorial: Trata‑se de uma notável carta pré‑filatélica algarvia que articula história postal, administração marítima, governação do Reino do Algarve e redes de patronagem da monarquia portuguesa. A identificação do destinatário como o 2.º Visconde de Mesquitela e a referência explícita ao Escaler do Governador fazem desta peça um documento de elevado interesse para história postal contextualizada e para exposições competitivas de História Postal e Filatelia Social.

