segunda-feira, 29 de junho de 2026

Bilhete postal ilustrado Salão dos Embaixadores do Palácio Real de Queluz (PT-BPI-1902-PAHPS)

 

Bilhete-postal ilustrado de Queluz, Portugal, representando o Salão dos Embaixadores do Palácio Real de Queluz. A imagem mostra o interior de uma sala cerimonial com ampla perspetiva axial, teto ricamente decorado com pintura ornamental, lustre central suspenso, portas simétricas e grandes janelas distribuídas ao longo das paredes laterais. Na margem superior encontra-se a legenda identificativa do local, enquanto a frente apresenta inscrição manuscrita e sinais de circulação postal. Peça filatélica e iconográfica que documenta a divulgação postal do património arquitetónico português. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado internacionalmente
Origem e destino: Lisboa (Portugal) → Nice (França)
Data(s):

Data manuscrita: 03.07.1902
Carimbo de partida: 04.07.1902 (Lisboa – Central)
Carimbo de chegada: 08.07.1902 (Nice – Arrivée)


Emissão filatélica associada:

D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis


Autor / Remetente / Destinatário:

Remetente: Cacy de Guimarães
Destinatário: Mme M. Scoffier
Morada: 13, rue Masséna, Nice, Alpes-Maritimes, França




2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA
Suporte e impressão

Cartão postal ilustrado em cartolina, impressão a preto e branco (fototipia)
Verso não dividido com inscrição tipográfica base:

“UNION POSTALE UNIVERSELLE – CARTE POSTALE”
“Côté réservé à l’adresse”



Modificações manuscritas/funcionais

A expressão “UNION POSTALE UNIVERSELLE” encontra-se rasurada
Presença da inscrição “imprimé” (manuscrita)

(Estes elementos são determinantes para análise funcional e curatorial — ver secção 3 e 5.)
Imagem (anverso)

Salão dos Embaixadores do Palácio Real de Queluz

Editor

F. A. Martins – Praça Luiz de Camões, 33, Lisboa
Série n.º 168

Selos

25 réis – D. Carlos I, tipo Mouchon
Cor vermelha
Obliteração por carimbo circular

Carimbos


Partida:

“LISBOA – CENTRAL”
04.07.1902
Preto, legível



Chegada:

“NICE / ARRIVÉE”
08.07.1902
Preto, aplicado na frente



Outros elementos manuscritos

“8/10” (canto superior esquerdo do anverso)
Texto descritivo inferior
Assinatura e data do remetente


3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA
3.1 Percurso postal
Circulação Lisboa–Nice em 4 dias (04–08.07.1902), dentro dos padrões da rede UPU.

3.2 Enquadramento tarifário

Franquia aplicada: 25 réis
Correspondente à tarifa internacional de carta simples


3.3 Interpretação funcional da rasura “UPU” e inscrição “imprimé”
Evidência observável:

Rasura explícita de “UNION POSTALE UNIVERSELLE”
Adição manuscrita de “imprimé”
Franquia de 25 réis (superior à tarifa de impresso)

Interpretação fundamentada:

A inscrição “imprimé” não produziu efeito tarifário, uma vez que:

a franquia aplicada corresponde a carta, não a impresso


A rasura da referência UPU sugere:

intervenção consciente sobre a natureza formal do objeto



Conclusão interpretativa (com prudência metodológica):


Estes elementos indicam mais plausivelmente:
→ prática de manipulação associada ao colecionismo ou ao uso social do postal,
do que tentativa funcional de redução de porte


Esta interpretação baseia-se na incompatibilidade entre:

inscrição “imprimé”
e valor efetivamente franqueado




3.4 Contexto histórico

Produção no auge da cartofilia europeia
Período de experimentação funcional dos suportes postais
Integração nos circuitos internacionais da UPU
Nice como destino burguês e turístico


3.5 Particularidades relevantes

Uso de tarifa de carta em bilhete-postal
Rasura deliberada de referência institucional (UPU)
Inserção de qualificador alternativo (“imprimé”) sem efeito postal
Estrutura seriada: “8/10”
Presença de carimbo de chegada bem definido


4. TRANSCRIÇÃO
Anverso

“Salon dus Embassadeurs, au Palais Royal de Queluz.”


“Cacy de Guimarães
3/7/02”


“8/10”


Verso

Mme M. Scoffier
13, rue Masséna
à Nice
Alpes-Maritimes
France


“imprimé” [manuscrito]


5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO
Factos

Postal circulado com tarifa de carta
Rasura da designação UPU
Adição manuscrita “imprimé”
Sequência “8/10”
Remetente identificado


Interpretação (distinguindo níveis)
Nível postal (formal)

O objeto foi tratado como carta simples internacional
A inscrição “imprimé” não teve efeito operacional no tratamento postal

Nível social e cultural

A rasura de “UPU” e a adição “imprimé” indicam:

manipulação consciente do objeto
possível apropriação subjetiva do suporte



Nível de colecionismo (hipótese fundamentada)

A prática pode refletir:

comportamento ligado ao colecionismo emergente de postais
experimentação simbólica com categorias postais
ou mesmo gestos de diferenciação/individualização do objeto



→ Importante:
Esta leitura é interpretativa, mas sustentada pela incoerência tarifária observada

Hipóteses a validar

Motivação exata da rasura (colecionismo vs jogo semiológico vs prática individual)
Identidade social de Cacy de Guimarães
Existência do conjunto completo (série 1–10)


6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL
Interesse filatélico
Elevado:

uso não standard de tarifa
circulação internacional documentada
intervenção manuscrita significativa

Interesse curatorial
Muito elevado — peça com múltiplas camadas:

postal como objeto postal
postal como objeto manipulado
postal como objeto de coleção

Raridade

Moderada como peça isolada
Elevada pela conjugação:

intervenção sobre UPU
sequência numerada
coerência narrativa



Potencial de estudo
Particularmente forte para:

psicossociologia postal
estudos de apropriação do objeto postal
história cultural do colecionismo


7. REFERÊNCIAS (SUGERIDAS)

Regulamentos da União Postal Universal (c. 1890–1905)
Catálogos Mundifil / Afinsa (D. Carlos I tipo Mouchon)
Literatura sobre cartofilia europeia inicial


8. NOTAS METODOLÓGICAS

Interpretação da rasura baseada em evidência material observável
Conclusão sobre colecionismo apresentada como hipótese fundamentada, não definitiva
Análise beneficiaria de comparação com outras peças da mesma série/remetente


🔎 Nota curatorial final (afinada)
Esta peça constitui um exemplo notável de tensão entre norma postal e apropriação individual, onde o postal deixa de ser apenas suporte regulamentado e passa a objeto manipulado — possivelmente no contexto emergente do colecionismo e da construção de narrativas pessoais em série.

Verso de bilhete-postal circulado, com área de mensagem manuscrita e endereço destinado a Nice, Alpes-Maritimes, França. O exemplar apresenta selo postal de 25 réis com efígie régia, carimbo de origem e carimbo de chegada, além da designação “Carte Postale” impressa. São visíveis linhas de endereçamento, marcas postais e elementos tipográficos próprios da correspondência ilustrada do período. Documento postal que preserva evidências materiais de circulação internacional e do uso dos serviços de correio associados ao bilhete-postal ilustrado. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


Bilhete postal "Floreira do novo hotel Bussaco (PT-BPI-1906-PAHPS-BUS)

Bilhete-postal ilustrado do Buçaco, Portugal, representando a denominada Floreira do Norte do Palácio do Buçaco. A composição apresenta uma estrutura arquitetónica de inspiração neomanuelina, com varanda elevada, colunas ornamentadas, arcos rendilhados em pedra e elementos decorativos esculpidos na fachada. Na parte inferior encontra-se a legenda identificativa “BUSSACO – (Portugal) – Floreira do no...”. O exemplar inclui mensagem manuscrita na frente, selo de 10 réis e marcas de circulação postal. Peça documental de interesse filatélico e iconográfico relacionada com a divulgação turística e patrimonial do Buçaco. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado (verso dividido)
  • Origem: Sintra (interpretação fundamentada a partir do carimbo expandido)
  • Destino: Terneuzen, Países Baixos
  • Data de expedição: 15/09/1906
  • Data de chegada: 19/09/1906
  • Emissão filatélica associada:
    • D. Carlos I, tipo Coroa, 10 réis (verde)
  • Remetente:
    • José Manuel da Silva Ferreira
    • Rua de S. Bento, n.º 510, r/c dto, Lisboa
  • Destinatário:
    • William Clepkens
    • Station Terneuzen
    • Países Baixos

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte:

    • Bilhete-postal ilustrado em papel cartonado
    • Verso dividido com fórmula UPU
    • Indicações multilingues
  • Ilustração:

    • Palace Hotel do Bussaco – “Floreira do novo Hotel”
  • Selo:

    • D. Carlos I, 10 réis, verde
    • Aplicado no anverso
  • Carimbos:

    1. Expedição (anverso):

      • Carimbo circular (leitura após ampliação)
      • Toponímia: Sintra
      • Data: 15 SET 06
    2. Chegada (verso):

      • Carimbo circular de duplo anel
      • “TERNEUZEN”
      • Indicação horária: “10 – IIV”
      • Data: 19 SEP 06

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

3.1. Percurso postal (documentado)

  • Sintra (15/09/1906) → Terneuzen (19/09/1906)
  • Duração: 4 dias

Dado objetivo: trânsito internacional ligeiramente mais demorado do que o exemplar de agosto (3 dias), mas perfeitamente dentro dos padrões normais da época.


3.2. Comparação cronológica com o primeiro postal

ElementoPostal 1Postal 2
Data expedição03/08/1906 (Lisboa)15/09/1906 (Sintra)
Data chegada06/08/190619/09/1906
Duração3 dias4 dias
OrigemLisboaSintra
MotivoBussaco – fachadaBussaco – detalhe

Conclusão sustentável: continuidade de correspondência ao longo de, pelo menos, 6 semanas.


3.3. Interpretação geográfica (elemento novo)

A expedição a partir de Sintra introduz um dado relevante:

  • o remetente (residente em Lisboa) envia a partir de outra localidade
  • sugere:
    • deslocação temporária
    • ou envio durante viagem/estadia

Hipótese fundamentada: o remetente poderá estar em circulação (turística ou outra), mantendo ativa a troca cartófila.


3.4. Lógica cartófila (reforço)

A série evidencia agora:

  • continuidade temporal
  • diversidade geográfica de expedição
  • coerência temática (Bussaco)

→ permitindo afirmar com forte grau de segurança:

Rede cartófila ativa, dinâmica e mantida ao longo do tempo.


3.5. Temporalidade e sociabilidade

A sequência agosto → setembro demonstra:

  • não se trata de troca pontual
  • mas de relação epistolar continuada

→ elemento central para análise prosopográfica


3.6. Eficiência postal

  • Lisboa → Terneuzen: 3 dias
  • Sintra → Terneuzen: 4 dias

Diferença mínima, indicando:

  • boa integração regional da rede postal
  • impacto logístico limitado da origem periférica

3.7. Marcofilia comparada (enriquecida)

A série passa a integrar:

  • carimbo Lisboa Central (hexagonal)
  • carimbo Sintra (circular)
  • carimbo Terneuzen (duplo anel com hora)

→ conjunto com elevado potencial para estudo comparativo:

  • níveis de rede postal (central vs local)
  • práticas de carimbo nacionais vs internacionais


4. TRANSCRIÇÃO

Verso (endereço)

  • “Monsieur
    William Clepkens
    Station Terneuzen
    Holland”

Indicações impressas

  • “Union Postale Universelle – Portugal”
  • “Carte Postale – Bilhete Postal”

Nota manuscrita

  • “Timbre au dos.”

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

5.1. Consolidação da rede cartófila

Com duas peças integralmente documentadas:

  • agosto (Lisboa)
  • setembro (Sintra)

→ temos já um segmento temporal mínimo consistente


5.2. Mobilidade do remetente

A mudança de local de expedição sugere:

  • mobilidade espacial
  • manutenção da prática de envio em contexto de deslocação

→ comportamento típico de colecionador ativo


5.3. Estrutura da relação

A correspondência apresenta:

  • estabilidade de destinatário
  • regularidade temporal
  • consistência temática

→ definição clara de:

relação cartófila bilateral estruturada


5.4. Valor para o teu modelo científico

Esta peça permite avançar para:

  • análise longitudinal
  • identificação de padrões de envio
  • integração em rede mais ampla (se existirem outros correspondentes)


6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse filatélico: Muito elevado

  • Valor diferencial:

    • percurso completo
    • integração numa série cronológica
  • Valor científico: Elevado

    • apto para estudo prosopográfico e relacional
  • Potencial expositivo: Excecional

    • permite narrativa de:
      • mobilidade
      • tempo postal
      • rede internacional


7. REFERÊNCIAS (INDICATIVAS)

  • Catálogos Afinsa / Mundifil – D. Carlos I
  • Estudos sobre circulação postal europeia (c. 1900)
  • Literatura sobre cartofilia internacional
  • Marcofilia portuguesa (Lisboa / Sintra)


8. NOTAS METODOLÓGICAS

  • Toponímia “Sintra” baseada em ampliação — considerada segura mas dependente de leitura ótica
  • Interpretação de mobilidade do remetente é fundamentada, mas não comprovada documentalmente
  • Integração em rede cartófila baseada em múltiplas peças confirmadas


SÍNTESE CURATORIAL (NÍVEL SUPERIOR)

Bilhete-postal expedido de Sintra (15.09.1906) para Terneuzen, integrado numa rede cartófila ativa entre José Manuel da Silva Ferreira (Lisboa) e William Clepkens (Países Baixos), evidenciando continuidade temporal, mobilidade do remetente e circulação internacional eficiente no início do século XX. 

Verso de bilhete-postal circulado com impresso da União Postal Universal e campos destinados à correspondência e ao endereço. O exemplar está endereçado a William Glover, em Terneuzen, na Holanda, apresentando carimbo postal de Queluz datado de setembro de 1906. São visíveis as linhas de endereçamento, anotações manuscritas e os elementos tipográficos próprios dos bilhetes-postais internacionais do início do século XX. Documento postal que conserva evidências materiais da circulação de correspondência ilustrada entre Portugal e os Países Baixos. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Bilhete-postal Lisboa-Terneuzen (1906): Palace Hotel do Bussaco e a Rede Cartófila Europeia - PT-BPI-1906-PAHPS-BUS

Bilhete-postal ilustrado do Buçaco, Portugal, representando a fachada do denominado Novo Hotel, integrado no conjunto arquitetónico do Palácio-Hotel do Buçaco. A imagem evidencia a arquitetura de inspiração neomanuelina, com galeria porticada de arcos rendilhados, torre angular ornamentada, pináculos decorativos e elementos escultóricos em pedra. O exemplar apresenta a legenda impressa “BUSSACO – (Portugal). Fachada do novo Hotel”, bem como selo postal de 10 réis e marca de circulação na frente. Documento iconográfico e filatélico relacionado com a divulgação turística e patrimonial do Buçaco através do bilhete-postal ilustrado. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado (verso dividido)
  • Origem: Lisboa (Estação Central – 3.ª Secção)
  • Destino: Terneuzen, Países Baixos
  • Data de expedição: 03/08/1906
  • Data de redação: 04/08/1906
  • Data de chegada: 06/08/1906
  • Emissão filatélica associada:
    • D. Carlos I, Emissão de Portugal Continental, D. Carlos I (1895–1899) - 10 réis (verde)
  • Remetente:
    • José Manuel da Silva Ferreira
    • Rua de S. Bento, n.º 510, r/c dto, Lisboa
  • Destinatário:
    • William Clepkens
    • Station Terneuzen
    • Países Baixos

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte:

    • Bilhete-postal ilustrado em papel cartonado
    • Verso dividido com fórmulas UPU
  • Ilustração:

    • Palace Hotel do Bussaco
    • Legenda: “BUSSACO. – (Portugal). Fachada do novo Hotel.” (n.º 649)
  • Selo:

    • D. Carlos I, 10 réis, verde
    • Aplicado no anverso
  • Carimbos:

    1. Expedição (anverso):

      • Carimbo datado hexagonal
      • “Lisboa Central – 3.ª Secção”
      • Data: 03/08/1906
    2. Chegada (verso):

      • Carimbo circular de duplo anel
      • “Terneuzen” (leitura coerente com destino)
      • Indicação horária: “7–8V” (janela horária de distribuição)
      • Data: 06 AUG 06 (06/08/1906)
  • Outros elementos:

    • Inscrição “Salutations” no anverso
    • Mensagem manuscrita e identificação do remetente no verso

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

3.1. Percurso postal (reconstrução documentada)

  • Lisboa (03/08/1906) → Terneuzen (06/08/1906)
  • Duração total: 3 dias

Dado objetivo verificado: percurso internacional rápido, totalmente compatível com as redes postais europeias do início do século XX.

3.2. Interpretação do trânsito

  • Transporte muito provavelmente ferroviário e/ou combinado ferroviário-marítimo
  • Integração plena nas infraestruturas da UPU

(Nota metodológica: o modo de transporte específico não está documentado na peça; a interpretação baseia-se em práticas correntes da época.)

3.3. Cronologia e incongruência de datas

  • Expedição: 03/08/1906
  • Redação: 04/08/1906
  • Chegada: 06/08/1906

Avaliação crítica:

  • A presença do carimbo de chegada confirma a validade da data postal de expedição
  • A data manuscrita (04/08/1906) torna-se agora claramente:

Erro de datação pelo remetente (interpretação altamente provável)

3.4. Eficiência do serviço postal

O intervalo de 3 dias entre Lisboa e os Países Baixos evidencia:

  • elevada eficiência da rede postal internacional
  • sincronização eficaz entre serviços nacionais e estrangeiros
  • normalização de tempos de trânsito na Europa ocidental

3.5. Dimensão cartófila (reforçada)

A existência de:

  • múltiplos postais entre os mesmos intervenientes
  • envio internacional regular
  • escolha de imagens diferenciadas

permite afirmar com elevado grau de confiança:

Trata-se de uma troca cartófila estruturada e reiterada.

Esta peça funciona, assim, como:

  • unidade individual
  • e simultaneamente elemento de uma série relacional

3.6. Dimensão marcofílica

  • Associação de dois sistemas postais:
    • Lisboa (carimbo hexagonal urbano)
    • Terneuzen (carimbo circular de chegada com indicação horária)

→ relevante para estudos comparativos de:

  • tipologias de carimbo
  • organização do tratamento postal por países

4. TRANSCRIÇÃO

Frente

  • “Salutations.”

Verso

Endereço:

  • “Monsieur
    William Clepkens
    Station Terneuzen
    Holland”

Remetente:

  • “José Manuel da Silva Ferreira
    Rua de S. Bento 510 r/c dto
    Lisboa”

Mensagem:

  • Texto manuscrito com referência a Bussaco
  • Conteúdo breve (legibilidade parcial)

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

5.1. Documento de circuito postal completo

Esta peça adquire um valor acrescido decisivo por documentar:

Expedição + trânsito + chegada com datas verificáveis

→ situação particularmente relevante em história postal.

5.2. Rede cartófila internacional

A recorrência entre os intervenientes permite caracterizar:

  • relação de intercâmbio sistemático
  • integração em redes europeias de colecionadores

Sem evidência de:

  • instituição formal
  • associação organizada

→ trata-se, com elevada probabilidade, de uma rede informal de cartofilia

5.3. Temporalidade da comunicação

  • Tempo entre envio e receção: 3 dias
  • Comunicação quase “quase-imediata” para padrões do início do século XX

→ confirma a função do postal como:

  • meio rápido
  • suporte leve
  • instrumento de sociabilidade frequente

5.4. Valor metodológico (alinhado com o teu projeto)

Esta peça constitui um caso exemplar para:

  • análise prosopográfica
  • estudo de redes epistolares
  • modelização de fluxos de comunicação

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse filatélico: Muito elevado

    • percurso completo documentado
    • carimbos de origem e chegada identificáveis
    • intervenientes conhecidos
  • Valor científico: Elevado

    • objeto apto para análise relacional e longitudinal
  • Raridade:

    • elevada enquanto peça integrada numa série relacional documentada
  • Potencial expositivo: Excecional

    • eixo forte:

      “Circulação postal europeia (1900–1910): tempo, rede e sociabilidade”

       

7. REFERÊNCIAS (INDICATIVAS)

  • Catálogos Afinsa / Mundifil – D. Carlos I

8. NOTAS METODOLÓGICAS

  • O percurso postal plenamente comprovado por evidência material
  • A interpretação de troca cartófila baseia-se em corpus múltiplo no acervo
  • O modo de transporte permanece não documentado

SÍNTESE CURATORIAL (FINAL)

Bilhete-postal expedido de Lisboa (03.08.1906) por José Manuel da Silva Ferreira para William Clepkens (Terneuzen), integrado numa rede de troca cartófila internacional, com chegada documentada em 06.08.1906. Testemunho exemplar da eficiência postal europeia e das sociabilidades cartófilas do início do século XX.

Verso de bilhete-postal circulado com impresso da União Postal Universal, apresentando áreas distintas para correspondência e endereço. O exemplar encontra-se manuscrito e endereçado a William Cochrens, na estação de Terneuzen, Holanda. São visíveis carimbos postais de expedição e trânsito, bem como elementos tipográficos característicos dos bilhetes-postais internacionais do início do século XX. A peça conserva evidências materiais do percurso postal e da comunicação escrita por correio, constituindo uma fonte documental para o estudo da história postal e das redes internacionais de correspondência. Exemplar na coleção de Sérgio Pedro.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Sintra - Palácio da Pena / Edição Costa n.º 624 (PT-BPI-1904-PAHPS-SIN)

Bilhete-postal ilustrado de Sintra representando o Real Castello da Pena, atualmente conhecido como Palácio Nacional da Pena. A imagem apresenta uma vista geral do conjunto arquitetónico implantado sobre uma elevação densamente arborizada, destacando-se as muralhas, torres, cúpula de grandes dimensões e diferentes corpos edificados que caracterizam o monumento. Na margem superior encontra-se a legenda “REAL CASTELLO DA PENA, CINTRA”, sendo igualmente visíveis anotações manuscritas na frente do postal. Documento iconográfico destinado à divulgação de um dos mais reconhecidos marcos patrimoniais portugueses através do correio ilustrado. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Cintra / Sintra, Portugal

  • Destino: Rochefort (Charente‑Inférieure), França

  • Datas relevantes:

    • 22.09.1904 — data manuscrita

    • 22.09.1904 — carimbo de partida “Lisboa Gare”

    • 25.09.1904carimbo de chegada francês de duplo círculo “Type 04”

  • Emissão filatélica associada:

    • Selo D. Carlos I — tipo Mouchon, 25 réis carmim (Afinsa 141 / Mundifil 141), emissão de 1898

  • Remetente: Paul Aliseriz / Alizert (assinatura manuscrita; identidade não confirmada)

  • Destinatário: Monsieur Gazeau / Gazeaul, La Forêt, Rochefort (Charente‑Inférieure); identidade não confirmada

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal ilustrado, edição Costa, Rua do Ouro 295, Lisboa, n.º 624

  • Ilustração: Real Castello da Pena, Cintra — fotografia em sépia, vista panorâmica do palácio romântico sobre a serra

  • Selo:

    • 25 réis carmim, D. Carlos I tipo Mouchon, dentado 12½, impressão tipográfica

  • Carimbos:

    • Partida: Datador circular “CORREIO LISBOA GARE”, 22 SET 04, tinta preta, nítido

    • Chegada: Datador “ROCHEFORT-S-MER - CHARENTE-INF.RE”, 25 9 04, tinta preta, parcialmente legível

  • Outros elementos postais:

    • Impressão intacta: “UNION POSTALE UNIVERSELLE / PORTUGAL / BILHETE POSTAL”

    • Mensagem manuscrita vertical no anverso

    • Verso não dividido (regulamentar antes de 1906), reservado ao endereço

Verso de bilhete-postal circulado com impresso da União Postal Universal e espaços reservados para endereço e correspondência. O exemplar encontra-se endereçado a Rochefort, em França, apresentando selo português de 25 réis, carimbos postais de expedição e receção, bem como inscrições manuscritas efetuadas pelo remetente. São visíveis os elementos tipográficos característicos dos bilhetes-postais internacionais do início do século XX, incluindo a indicação de utilização do verso para a morada. Peça documental relevante para o estudo da história postal e das ligações internacionais estabelecidas através da correspondência ilustrada. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Percurso postal

O percurso Sintra → Lisboa → Rochefort segue o circuito habitual da correspondência internacional portuguesa no início do século XX. O datador de Lisboa Gare confirma a entrada na rede postal internacional no próprio dia do envio, com chegada a França três dias depois.

Enquadramento tarifário (UPU, 1904)

  • Carta internacional: 25 réis (até 20 g)

O franqueamento de 25 réis corresponde à tarifa de carta internacional, garantindo aceitação plena.

Particularidades relevantes

  • Estratégia postal implícita: O pagamento da tarifa de carta (25 réis) assegura que o postal circula sem risco de taxa adicional, independentemente do conteúdo manuscrito.

Identidade do remetente e destinatário (estado atual da investigação)

  • Remetente — Paul Aliseriz / Alizert: A assinatura é legível, mas não corresponde a nenhuma figura pública conhecida. Sem consulta a registos civis, listas de hóspedes ou diários de viagem de 1904, a identidade permanece hipotética.

  • Destinatário — Monsieur Gazeau / Gazeaul: A localização geográfica é clara (La Forêt, Rochefort), mas não é possível identificar o residente sem consultar os censos franceses de 1901 ou 1906. A identidade permanece não confirmada.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito)

Cintra, 22 (...) 1904. Bon souvenir de mon voyage. Paul Aliseriz [ou Alizert].

Verso (endereço)

Monsieur Gazeau, La Forêt, par Rochefort (Charente‑Inférieure), France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Este postal constitui um testemunho da circulação turística e epistolar entre Portugal e França no início do século XX. A escolha do Palácio da Pena — ícone do romantismo português — reforça o caráter de souvenir de viagem. A peça destaca‑se pelo franqueamento correto, pela ausência de rasuras e pela simplicidade da mensagem, refletindo uma utilização postal genuína e não colecionista. As identidades do remetente e destinatário permanecem não confirmadas, abrindo espaço para investigação genealógica e contextual sobre viajantes franceses em Portugal no período pré‑1906.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: elevado para coleções temáticas sobre Sintra, turismo romântico, circulação postal UPU e edições Costa

  • Raridade: moderada; postais turísticos de Sintra circulados para França são procurados

  • Potencial museológico: excelente para exposições sobre:

    • o postal ilustrado português pré‑1906

    • circulação internacional

    • práticas epistolares de viajantes estrangeiros em Portugal

terça-feira, 16 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Belém Claustro dos Jerónimos / Edição Corrêa & Rapozo n.º 2 - João de Passos Canavarro - Santarém (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)

Bilhete-postal ilustrado representando o Claustro dos Jerónimos, em Belém, Portugal. A imagem mostra uma galeria do claustro com arcadas ornamentadas, colunas esculpidas e abóbadas de pedra características da arquitetura manuelina. Observa-se o corredor interior em perspetiva, com abundante decoração arquitetónica visível nos pilares e nos arcos, bem como uma passagem que conduz a outras áreas do conjunto monástico. Na margem inferior encontra-se a legenda impressa “BELEM — CLAUSTRO DOS JERONYMOS — PORTUGAL”, sendo também visíveis inscrições manuscritas na frente do postal. Documento iconográfico dedicado à divulgação do património monumental português através do correio ilustrado. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

 1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete Postal Ilustrado (BPI) de fórmula oficial, circulado com desvio de regime postal.
  • Origem e destino: Santarém (Portugal) para Die, Departamento de Drôme, Região de Auvérnia-Ródano-Alpes, França.
  • Data(s): 14 de fevereiro de 1902 (partida); 18 de fevereiro de 1902 (chegada).
  • Emissão filatélica associada: Emissão Regular de Portugal Continental, D. Carlos I, tipo "Mouchon" (Série de 1895–1899).
  • Autor/remetente/destinatário:
    • Remetente: Dr. João de Passos de Sousa Canavarro ("Jean").
    • Destinatária: Mademoiselle Marguerite Cochet.
2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA
  • Caracterização do suporte: Cartão de fórmula oficial, gramagem média, pardo/creme. Cabeçalho bilingue impresso a preto no verso; fototipia monocromática no anverso.
  • Selos: Um exemplar de D. Carlos I (Mouchon), 15 réis, verde-escuro, denteado 11 ½, aplicado no quadrante superior esquerdo do verso.
  • Carimbos:
    1. Partida: Tipo circular datador tipo 1880, legenda "SANTARÉM / 14 FEV. 02", a tinta preta sobre o selo.
    2. Chegada: Francês, circular de duplo anel, legenda "DIE / (DROME)", datado de "5^E / 18 / 02" (18 de fevereiro de 1902, 17:00h / 5 horas da tarde).
  • Outros elementos postais: Invalidação manual a tinta preta das inscrições "BILHETE POSTAL" e "CARTE POSTALE"; indicação manuscrita "Impresso" no verso. Margem do anverso com inscrição editorial: "N.º 2 — Collecção CORRÊA & RAPOZO — Rua Aurea, 214 — LISBOA".
Verso de bilhete-postal circulado com a inscrição “Bilhete Postal / Carte Postale” e campos destinados ao endereço e correspondência. O exemplar apresenta selo português de 10 réis cancelado por carimbo postal, bem como carimbo de chegada aplicado em França. A peça encontra-se endereçada a Dijon, conservando a caligrafia original do remetente e os elementos gráficos próprios dos bilhetes-postais do início do século XX. Documento postal que preserva evidências materiais da circulação internacional de correspondência ilustrada entre Portugal e França. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA
  • Interpretação do percurso postal: Depositado na estação de Santarém a 14 de fevereiro de 1902, seguiu por via férrea até Lisboa, integrando a mala internacional do Sud-Express. Cruzou a fronteira e transitou por território francês até à região do Ródano-Alpes, alcançando o destino final na histórica comuna de Die (Drôme) a 18 de fevereiro de 1902, perfazendo um trânsito internacional rápido de apenas quatro dias.
  • Enquadramento tarifário: Anomalia ou reclassificação. O remetente alterou a fórmula para usufruir da taxa de Impresso de Cortesia Internacional (5 réis pela UPU). Contudo, aplicou um selo de 15 réis, gerando um sobrefranqueamento de 10 réis face à classe de impressos e um subfranqueamento face à classe de Carta Internacional (25 réis).
  • Contexto histórico e biográfico: O anverso exibe o Claustro do Mosteiro dos Jerónimos (Edição Corrêa & Rapozo). O remetente, Dr. João de Passos de Sousa Canavarro, era bacharel em Direito (Coimbra, 1896) e membro da influente dinastia liberal dos Passos de Santarém, escrevendo a partir da histórica residência familiar na Alcáçova. O seu elevado estatuto sociocultural justifica a assinatura francófona ("Jean"), a sociabilidade com a destinatária em França e o domínio técnico das normas da UPU.
  • Particularidades Curatoriais (Prática Cartófila): A alteração física do suporte levanta três hipóteses explicativas, adicionando uma vertente sociológica de enorme relevância para a época:
    1. Escassez Material: O sobrefranqueamento para 15 réis (taxa de carta interna) terá decorrido de uma falta momentânea de selos de menor valor (5 ou 10 réis) na abastada casa rural de Santarém.
    2. Prática de Colecionismo (Cartofilia): Na viragem do século, no auge da voga do colecionismo de BPIs, era frequente os colecionadores e correspondentes rasurarem deliberadamente as palavras "Bilhete Postal". Esta prática visava forçar a inclusão do objeto na categoria de "Impresso", contornando a proibição de escrever no anverso (lado da imagem). Permitia, assim, enviar o postal limpo de texto longo, contendo apenas a assinatura e data na face ilustrada (como se observa nesta peça), preservando a integridade estética da imagem para o álbum do destinatário.
    3. Erro ou Tolerância de Balcão: A aceitação em Santarém e a tolerância à chegada na Drôme indiciam que a sobretaxação de 15 réis anulou qualquer zelo burocrático sobre a descaracterização da fórmula.
4. TRANSCRIÇÃO
Verso (Manuscrito)
  • Impresso
  • M[ademoisel]le Marguerite Cochet / Die (Drôme) / France
Verso (Texto Impresso)
  • BILHETE POSTAL / CARTE POSTALE
  • D'este lado só se escreve a direcção — Côté réservé à l'adresse.
Anverso (Texto Impresso e Manuscrito)
  • BELEM — CLAUSTRO DOS JERONYMOS — PORTUGAL
  • Santarém / Portugal / Jean de Passos Canavarro

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO
  • Análise Crítica: A peça cruza o formalismo burocrático postal com os hábitos socioculturais da Belle Époque.
  • Factos vs. Hipóteses: É factual a circulação internacional por 15 réis com destino a Die (Drôme) sem taxas de penalização. Permanece como forte hipótese de trabalho que a rasura não visou apenas a poupança tarifária (já de si anulada pelo selo de 15 réis), mas sim a obediência a um código cultural cartófilo: catalogar o objeto como impresso para justificar a transferência da assinatura e da data para o anverso, mantendo o verso estrito à morada e salvaguardando o valor estético do postal para a coleção de Mademoiselle Cochet.
6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL
  • Interesse para coleção/exposição: Elevado potencial para classes FIP de História Postal (Período de D. Carlos I) ou de Classe Aberta/Cartofilia, servindo como testemunho ideal de como a febre do colecionismo de postais no início do século XX forçava a adaptação e o desvio das fórmulas regulamentares dos correios.