domingo, 14 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Lisboa: Basílica da Estrela / Edição F. A. Martins (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS-168)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 25 de dezembro de 1902 (data manuscrita) e 26 de dezembro de 1902 (carimbo de partida)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição F. A. Martins, Praça Luiz de Camões 33, Lisboa, n.º 168

  • Ilustração: Fotografia da Basílica da Estrela (Lisboa), em tons sépia

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim

  • Carimbo de partida: Datador “LISBOA – CENTRAL”, 26‑12‑02, em preto

  • Carimbo de chegada: Datador francês Type 15, metálico de coroa dupla, legenda “NICE / ARRIVÉE”, datado de 31‑12‑02

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita extensa no anverso; verso não dividido reservado ao endereço



3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Percurso postal

Lisboa → rede internacional UPU → Nice, com registo de chegada às 08:30 da manhã de 31‑12‑1902, conforme o datador Type 15.

Enquadramento tarifário (UPU, 1902)

  • Carta internacional: 25 réis por 15 g

  • Bilhete postal internacional: 20 réis

  • Impressos: 5 réis por 50 g

  • Regra UPU: impressos só podiam conter até cinco palavras manuscritas de cortesia.

O texto manuscrito no anverso excede amplamente esse limite, invalidando a tarifa de impresso.

Particularidades de História Postal (versão integrada)

1. Estratégia sistemática do remetente

Ao longo de 1902, Cacy Guimarães adota um procedimento repetido e consciente:

  • rasura a fórmula oficial “Bilhete Postal”,

  • escreve “Imprimé” no anverso,

  • mas paga sempre 25 réis, a tarifa máxima de carta internacional.

Este comportamento revela uma solução técnica deliberada para garantir circulação segura.

2. Segurança na circulação

Os postais ilustrados privados — ainda não plenamente regulamentados pela UPU — eram frequentemente:

  • recusados,

  • taxados,

  • ou devolvidos, sobretudo quando circulavam na tarifa simples de 20 réis.

Ao pagar 25 réis, o remetente neutralizava qualquer risco de insuficiência, assegurando aceitação imediata em França.

3. Resultado prático

O sobrefranqueamento:

  • legitimava o texto manuscrito extenso,

  • evitava marcas “T” de taxa,

  • e garantia distribuição sem entraves.

4. A indicação “Imprimé” como prática social e colecionista

Importante: a palavra “Imprimé” não deve ser interpretada como pedido de tarifa reduzida.

Entre 1898 e 1906, tornou‑se prática comum entre colecionadores e remetentes cultos:

  • escrever “Imprimé” como classificação informal do postal ilustrado,

  • independentemente da tarifa paga,

  • mesmo quando o conteúdo manuscrito excedia o permitido para impressos.

Assim, no contexto desta peça, “Imprimé” funciona como etiqueta cultural, não como instrução tarifária.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito)

Église du Sacré‑Cœur de Jésus, à Lisbonne. XVIIIᵉ siècle. Bonne année. Salutations distinguées. Cacy de Guimarães, Lisbonne, 25.12.02.

Verso (endereço)

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Este postal é um testemunho exemplar da adaptação dos utilizadores às normas postais internacionais na viragem do século XX. Cacy Guimarães demonstra domínio prático das regras UPU e das vulnerabilidades associadas aos postais ilustrados privados, criando uma peça híbrida: visualmente classificada como “impresso”, mas tarifada como carta.

A estratégia revela:

  • literacia postal avançada,

  • consciência das práticas francesas de fiscalização,

  • e uma abordagem pragmática para garantir circulação sem penalizações.

A peça ganha valor adicional quando integrada no conjunto de correspondência do mesmo remetente, que documenta a repetição sistemática desta técnica ao longo de 1902–1903.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: muito elevado — tarifas UPU, postais ilustrados portugueses, marcas francesas Type 15, práticas sociais de circulação

  • Raridade: elevada quando contextualizada como parte de um conjunto coerente

  • Potencial museológico: ideal para narrativas sobre:

    • transição do bilhete postal estatal para o postal ilustrado privado

    • estratégias de sobrefranqueamento

    • limites e ambiguidades das categorias UPU