sábado, 13 de junho de 2026

Bilhete postal ilustrado Lisboa: Nave central da Igreja dos Jerónimos - Belém / Edição Costa (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 11–12 de dezembro de 1902 (data manuscrita e carimbo postal)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição Costa, Rua do Ouro 295, Lisboa, n.º 215.

  • Ilustração: Fotografia da Nave Central da Igreja dos Jerónimos – Belém – Portugal, em tons sépia.

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, dentado 12½, impressão tipográfica.

  • Carimbo: Datador “LISBOA – CENTRAL – 4.ª SECÇÃO”, 12 DEZ 02, em preto, nítido.

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita no anverso; verso reservado ao endereço (postal de verso não dividido).



3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

  • Percurso postal: Lisboa → Nice, via rede internacional da UPU.

  • Enquadramento tarifário:

    • A tarifa internacional de carta/postal simples em 1902 era de 25 réis (até 20 g).

    • A tarifa de impresso era muito inferior (2½ réis por 50 g).

    • A UPU permitia que impressos contivessem até cinco palavras manuscritas de cortesia, além do endereço.

    • No entanto, neste postal, o texto manuscrito no anverso excede claramente esse limite, o que descaracteriza o objeto como impresso.

    • O remetente, consciente desta distinção, franqueou corretamente com 25 réis, tarifa de carta internacional, apesar de ter escrito “Imprimé”.

  • Contexto histórico:

    • Em 1902, os postais ilustrados ainda tinham verso exclusivamente para o endereço, sendo o anverso o único espaço disponível para mensagens.

    • A regra UPU das cinco palavras aplicava‑se ao conjunto do manuscrito não‑endereço, independentemente do lado onde fosse escrito.

  • Particularidades:

    • Caso exemplar de incongruência entre designação e tarifa, mas com franquia correta.

    • Demonstra a prática postal real: tolerância administrativa e confusão frequente entre “impresso” e “correspondência pessoal”.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito):

Intérieur du Monastère dos Jeronymos, à Lisbonne. XVI siècle. Bons souvenirs. Cacy de Guimarães, Lisbonne. 11.12.02.

Verso (endereço):

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

A peça ilustra de forma exemplar a aplicação prática da regra UPU das cinco palavras. Embora o remetente tenha inscrito “Imprimé”, o texto manuscrito no anverso ultrapassa amplamente o limite permitido para que o objeto fosse tratado como impresso.

O facto de ter sido aplicada a tarifa de carta internacional (25 réis) demonstra que o remetente compreendia a distinção tarifária, ainda que utilizasse a palavra “Imprimé” num sentido lato — como sinónimo de “postal ilustrado” ou “objeto impresso”, e não como categoria tarifária formal.

A peça é, portanto, um testemunho da tensão entre norma e prática, revelando como os utilizadores navegavam (e por vezes confundiam) as categorias postais da viragem do século XX.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: Elevado para coleções de história postal, tarifas UPU, postais ilustrados portugueses e iconografia dos Jerónimos.

  • Raridade: Moderada; o uso da emissão Mouchon em postais turísticos internacionais é menos frequente.

  • Potencial museológico: Excelente para painéis didáticos sobre:

    • a regra UPU das cinco palavras,

    • a evolução dos postais ilustrados,

    • a distinção entre impresso e carta.