1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)
Tipo de peça: Postal ilustrado circulado
Origem: Lisboa (Portugal)
Destino: Nice (França)
Data: 11–12 de dezembro de 1902 (data manuscrita e carimbo postal)
Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)
Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)
Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França
2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA
Suporte: Cartão postal impresso, edição Costa, Rua do Ouro 295, Lisboa, n.º 215.
Ilustração: Fotografia da Nave Central da Igreja dos Jerónimos – Belém – Portugal, em tons sépia.
Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, dentado 12½, impressão tipográfica.
Carimbo: Datador “LISBOA – CENTRAL – 4.ª SECÇÃO”, 12 DEZ 02, em preto, nítido.
Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita no anverso; verso reservado ao endereço (postal de verso não dividido).
3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA
Percurso postal: Lisboa → Nice, via rede internacional da UPU.
Enquadramento tarifário:
A tarifa internacional de carta/postal simples em 1902 era de 25 réis (até 20 g).
A tarifa de impresso era muito inferior (2½ réis por 50 g).
A UPU permitia que impressos contivessem até cinco palavras manuscritas de cortesia, além do endereço.
No entanto, neste postal, o texto manuscrito no anverso excede claramente esse limite, o que descaracteriza o objeto como impresso.
O remetente, consciente desta distinção, franqueou corretamente com 25 réis, tarifa de carta internacional, apesar de ter escrito “Imprimé”.
Contexto histórico:
Em 1902, os postais ilustrados ainda tinham verso exclusivamente para o endereço, sendo o anverso o único espaço disponível para mensagens.
A regra UPU das cinco palavras aplicava‑se ao conjunto do manuscrito não‑endereço, independentemente do lado onde fosse escrito.
Particularidades:
Caso exemplar de incongruência entre designação e tarifa, mas com franquia correta.
Demonstra a prática postal real: tolerância administrativa e confusão frequente entre “impresso” e “correspondência pessoal”.
4. TRANSCRIÇÃO
Anverso (manuscrito):
Intérieur du Monastère dos Jeronymos, à Lisbonne. XVI siècle. Bons souvenirs. Cacy de Guimarães, Lisbonne. 11.12.02.
Verso (endereço):
Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.
5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO
A peça ilustra de forma exemplar a aplicação prática da regra UPU das cinco palavras. Embora o remetente tenha inscrito “Imprimé”, o texto manuscrito no anverso ultrapassa amplamente o limite permitido para que o objeto fosse tratado como impresso.
O facto de ter sido aplicada a tarifa de carta internacional (25 réis) demonstra que o remetente compreendia a distinção tarifária, ainda que utilizasse a palavra “Imprimé” num sentido lato — como sinónimo de “postal ilustrado” ou “objeto impresso”, e não como categoria tarifária formal.
A peça é, portanto, um testemunho da tensão entre norma e prática, revelando como os utilizadores navegavam (e por vezes confundiam) as categorias postais da viragem do século XX.
6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL
Interesse: Elevado para coleções de história postal, tarifas UPU, postais ilustrados portugueses e iconografia dos Jerónimos.
Raridade: Moderada; o uso da emissão Mouchon em postais turísticos internacionais é menos frequente.
Potencial museológico: Excelente para painéis didáticos sobre:
a regra UPU das cinco palavras,
a evolução dos postais ilustrados,
a distinção entre impresso e carta.

