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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Bilhete postal ilustrado PORTO – Claustros da Igreja da Sé (PT-BPI-1903-TCV-PORT-PAHPS)

 

Bilhete-postal ilustrado do Porto circulado para a Bretanha francesa em outubro de 1903, apresentando uma vista dos claustros da Sé do Porto. A peça reúne vários elementos característicos da cartofilia da Belle Époque: imagem patrimonial, mensagem manuscrita em francês, circulação internacional e utilização do anverso para escrita e franquia, prática comum antes da generalização do verso dividido. A combinação de património, mobilidade e comunicação interpessoal torna este postal um testemunho expressivo das redes culturais e sociais europeias do início do século XX. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado internacionalmente
  • Origem e destino: Porto (Portugal) → Erquy (Côtes-du-Nord, França)
  • Data(s):
    • Data manuscrita: 13.10.1903
    • Data de expedição: 15.10.1903 (Porto Central, 3.ª Secção)
    • Carimbo de chegada: 19.10.1903 (St. Quay-Portrieux, França)
  • Emissão filatélica associada:
    • D. Carlos I (1895), tipo corrente (Mouchon), 25 réis
  • Autor / Remetente / Destinatário:
    • Remetente: “J. Fournier” (identificação provável por análise caligráfica)
    • Destinatário: Mademoiselle Hélène Guillou
    • Local de destino: Erquy, Côtes-du-Nord, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

Suporte e impressão

  • Cartão postal ilustrado em cartolina
  • Impressão a preto e branco por processo fotomecânico (fototipia)

Imagem (anverso)

  • Vista dos Claustros da Sé do Porto, representando:

    • arcadas ogivais
    • elementos decorativos manuelinos
    • composição arquitetónica em perspetiva interior
  • Legenda:

    “PORTO – Claustros da Igreja da Sé”

  • Editor:

    Arnaldo Soares – Registrado (Porto)


Selos

  • Valor facial: 25 réis
  • Emissão: D. Carlos I (1895), tipo corrente
  • Cor: vermelha
  • Particularidade:
    • selo aposto no anverso, prática comum anterior à normalização de 1906

Carimbos

Obliteração principal

  • Tipo: datador hexagonal
  • Local: Porto Central – 3.ª Secção
  • Data: 15.10.1903
  • Aplicação sobre o selo

Obliteração complementar

  • Marca no verso:
    • no local teórico da franquia
    • reforçando a anulação

Chegada

  • Local: St. Quay-Portrieux (Côtes-du-Nord)
  • Data: 19.10.1903
  • Tipo: carimbo circular
  • Bem legível

Outros elementos postais

  • Estrutura de bilhete-postal não dividido (verso reservado à correspondência e endereço)
  • Escrita manuscrita no anverso, compatível com práticas pré-1906

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

3.1 Percurso postal

Sequência documentada:

  • Porto (15.10.1903)
    → transporte internacional
    → chegada a St. Quay-Portrieux (19.10.1903)

  • Tempo de trânsito: 4 dias
    → compatível com rede postal e marítima da UPU


3.2 Enquadramento tarifário

  • Franquia: 25 réis
  • Correspondente à tarifa internacional de carta simples

Interpretação:

  • Apesar de se tratar de um bilhete-postal, foi aplicada: → tarifa superior à do postal simples

  • Motivo provável (com base na evidência):

    • utilização do anverso para escrita
    • possível reclassificação como correspondência epistolar

3.3 Contexto postal

  • Período anterior à padronização do verso dividido (1906 em Portugal)
  • Prática comum:
    • selo no anverso
    • coexistência de escrita e imagem

3.4 Contexto histórico e cultural

  • Inserção plena na Belle Époque postal europeia
  • Intensificação da cartofilia e do turismo cultural
  • A Sé do Porto surge como:
    • elemento identitário do património nacional
    • motivo de circulação visual e simbólica

3.5 Particularidades relevantes

  • Uso de tarifa de carta em suporte de postal
  • Obli­tação dupla (anverso + verso)
  • Data manuscrita anterior à expedição
  • Interligação entre centros urbanos (Porto ↔ Bretanha francesa)
  • Forte componente arquitetónica patrimonial

4. TRANSCRIÇÃO (PARCIAL)

Verso (morada)

Mademoiselle Hélène Guillou
Grève … [texto parcialmente ilegível]
Côtes-du-Nord
France


Anverso (texto manuscrito)

(parcialmente ilegível — leitura limitada)

[texto manuscrito em francês]
Assinatura: “J. Fournier” (leitura provável)


5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Factos

  • Postal ilustrado internacional Porto–França
  • Franquia de 25 réis
  • Carimbo hexagonal de Porto Central
  • Carimbo de chegada completo
  • Selo no anverso
  • Identificação provável do remetente

Interpretação

Nível postal

  • Uso híbrido: → postal tratado como carta

  • Demonstra:

    • flexibilidade prática das normas
    • adaptação ao conteúdo escrito

Nível material

  • A colocação do selo no anverso:
    • segue convenção pré-1906
    • reforça a integração imagem/comunicação

Nível sociocultural

  • A correspondência evidencia:

    • redes transnacionais de sociabilidade
    • circulação de viajantes entre Portugal e França
  • A relação Fournier–Guillou sugere:

    • contacto pessoal inserido em redes sociais burguesas ou culturais

Síntese interpretativa

A peça constitui um exemplo claro de:

  • transição funcional do bilhete-postal
  • hibridização entre imagem e comunicação epistolar
  • circulação cultural europeia na Belle Époque

Hipóteses a validar

  • Identificação completa do remetente (J. Fournier)
  • Relação social entre emissor e destinatária
  • Conteúdo integral da mensagem manuscrita

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

Interesse filatélico

Elevado, pela conjugação de:

  • tarifa não standard
  • obliteração hexagonal
  • circulação internacional completa

Interesse curatorial

Muito elevado, destacando:

  • contexto Belle Époque
  • redes de sociabilidade transnacional
  • relação entre imagem, escrita e mobilidade

Raridade

  • Emissão comum
  • Valor acrescido pelo uso postal específico e contexto interpretativo

Potencial de estudo

Muito relevante para:

  • história postal internacional
  • cartofilia portuguesa inicial
  • psicossociologia postal
  • redes sociais pré‑Primeira Guerra

7. REFERÊNCIAS (SUGERIDAS)

  • Regulamentos da União Postal Universal (c. 1900–1905)
  • Catálogos Mundifil / Afinsa – D. Carlos I
  • Estudos sobre cartofilia europeia e turismo cultural (Belle Époque)

8. NOTAS METODOLÓGICAS

  • Identificação do remetente baseada em leitura paleográfica (não confirmada documentalmente)
  • Transcrição parcial devido à legibilidade limitada do manuscrito
  • Interpretação tarifária fundamentada na prática postal conhecida
  • Distinção mantida entre evidência observável e interpretação

🔎 Nota curatorial final

Esta peça constitui um testemunho exemplar da cartofilia da Belle Époque, onde o bilhete-postal opera simultaneamente como:

  • suporte iconográfico (património),
  • meio epistolar (comunicação pessoal),
  • e instrumento de circulação cultural internacional.

Bilhete-postal ilustrado do Porto circulado para a Bretanha francesa em outubro de 1903, apresentando uma vista dos claustros da Sé do Porto. A peça reúne vários elementos característicos da cartofilia da Belle Époque: imagem patrimonial, mensagem manuscrita em francês, circulação internacional e utilização do anverso para escrita e franquia, prática comum antes da generalização do verso dividido. A combinação de património, mobilidade e comunicação interpessoal torna este postal um testemunho expressivo das redes culturais e sociais europeias do início do século XX. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Bilhete postal ilustrado THOMAR – (1906). Margens do Nabão - entre açudes (PT-BPI-1906-SIN-PAHPS-278)

Postal ilustrado representando as margens do rio Nabão em Tomar, circulado entre Lisboa e Terneuzen em outubro de 1906. A peça distingue-se pela aplicação pouco convencional do selo D. Carlos I, colocado entre as duas faces do cartão e validado por carimbos de diferentes administrações postais. A presença da anotação manuscrita “timbre côté vue”, a rasura deliberada de elementos impressos do formulário postal e a cadeia completa de carimbos de origem, trânsito e chegada fazem deste documento um testemunho singular da apropriação individual das normas postais durante a Belle Époque. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado internacionalmente
  • Origem e destino: Lisboa (Portugal) → Terneuzen (Países Baixos)
  • Data(s):
    • Carimbo de partida: 11.10.1906 (Lisboa – Central, 3.ª Secção, datador hexagonal)
    • Carimbo de trânsito: 15.10.1906 (Amsterdam)
    • Carimbo de chegada/distribuição: 15.10.1906 (Neuzen / Terneuzen, com indicação horária “10–IIV”)
  • Emissão filatélica associada:
    • D. Carlos I, tipo Mouchon, 10 réis (verde)
  • Autor / Remetente / Destinatário:
    • Remetente: José Manuel da Silva Ferreira
      • Morada: Rua de S. Bento, n.º 510, r/c dto, Lisboa
    • Destinatário: William Clepkens
      • Morada: Station Terneuzen, Países Baixos

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

Suporte e impressão

  • Cartão postal ilustrado em cartolina
  • Impressão fototípica a preto e branco
  • Verso dividido:
    • “Espaço reservado à correspondência”
    • “Espaço reservado à direcção”

Modificações e intervenções materiais

  • Rasura de “UNION POSTALE UNIVERSELLE”
  • Rasura de “CARTE POSTALE / BILHETE POSTAL”
  • Anotação manuscrita no canto superior direito:

    “timbre côté vue”


Imagem (anverso)

  • “THOMAR – (Portugal). Margens do Nabão (entre açudes)”
  • Número editorial: 278
  • Cartão postal ilustrado em cartolina texturada, produção nacional, com chancela “Martins Editor – Lisboa

Selos

  • Selo de 10 réis, D. Carlos I (Mouchon), cor verde
  • Característica distintiva:
    • colado parcialmente no anverso e parcialmente no verso
  • Interação postal:
    • carimbo de trânsito de Amsterdam incide sobre a parte do selo no verso

Carimbos

Partida

  • Tipo: datador hexagonal
  • Local: Lisboa – Central, 3.ª Secção
  • Data: 11.10.1906
  • Cor: preta
  • Boa legibilidade

Trânsito

  • Local: Amsterdam
  • Data: 15.10.1906
  • Tipo: circular
  • Particularidade:
    • incide parcialmente sobre o selo no verso

Chegada / distribuição

  • Tipo: circular de duplo anel
  • Inscrição: “NEUZEN”
  • Data: 15.10.1906
  • Indicação horária: “10–IIV”

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

3.1 Percurso postal

Sequência documentada:

Lisboa (11.10.1906)
→ Amsterdam (15.10.1906)
→ Neuzen / Terneuzen (15.10.1906)

  • Tempo total: 4 dias
  • Percurso coerente com rede ferroviária e postal europeia da UPU

3.2 Enquadramento tarifário

  • Franquia: 10 réis
  • Correspondente à tarifa internacional de bilhete-postal

→ Uso plenamente regular e conforme


3.3 Interpretação do selo parcialmente aplicado

Evidência

  • Selo atravessa a dobra entre anverso e verso
  • Carimbo de trânsito reforça a validação também no verso

Interpretação

  • Função dupla:
    • invalidação postal eficaz
    • efeito de lacre (garantia de integridade do objeto)

→ Prática pouco comum em bilhetes-postais, mais típica de correspondência fechada


3.4 Interpretação da anotação “timbre côté vue”

Evidência

  • Anotação explícita no verso
  • Contradição aparente:
    • selo visível em ambas as faces

Interpretação (fundamentada)

  • A anotação indica: → intenção consciente do remetente relativamente à posição do selo

  • Possíveis leituras:

    1. Preferência estética/comunicacional (selo associado à face ilustrada)
    2. Instrução funcional dirigida ao sistema postal
    3. Marca idiossincrática (uso pessoal ou classificatório)

→ Importante:

  • A prática não interfere com a validade postal
  • É coerente com comportamento ativo do remetente sobre o objeto

3.5 Contexto histórico

  • Bilhete-postal inserido na fase madura da cartofilia (c. 1905–1910)
  • Integração plena da rede UPU
  • Circulação internacional rápida e documentada
  • Terneuzen:
    • porto relevante na Zelândia
    • integrado nas redes comerciais europeias

3.6 Particularidades relevantes

  • Datador hexagonal de Lisboa Central (3.ª Secção)
  • Cadeia completa origem → trânsito → chegada
  • Selo com dupla função (franquia + selagem)
  • Anotação funcional manuscrita
  • Rasura deliberada das referências UPU
  • Identificação completa do remetente (raro em postais desta natureza)

4. TRANSCRIÇÃO

Verso (morada)

Monsieur
William Clepkens
Station Terneuzen
(Pays-Bas)


Verso (remetente)

José Manuel da Silva Ferreira
Rua de S. Bento, n.º 510, r/c dto
Lisboa


Verso (anotação)

“timbre côté vue”


Anverso

“THOMAR – (Portugal). Margens do Nabão (entre açudes)”


5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Factos

  • Circulação internacional plenamente documentada
  • Franquia correta
  • Cadeia postal completa
  • Selo aplicado de forma não convencional
  • Intervenção manuscrita funcional
  • Rasura das designações institucionais

Interpretação

Nível postal

  • Peça exemplar de funcionamento da rede UPU
  • Demonstra:
    • eficiência logística
    • validação multi-estação

Nível material

  • O selo funciona simultaneamente como:
    • franquia
    • elemento de segurança
    • suporte de validação cruzada entre estações

Nível comportamental

  • O remetente revela:
    • elevado grau de intervenção sobre o objeto
    • consciência das regras postais
    • vontade de as moldar simbolicamente

Nível sociocultural

  • A combinação de:
    • rasura da UPU
    • anotação “timbre côté vue”
    • uso do selo como lacre

→ evidencia apropriação ativa e reflexiva do postal enquanto objeto


Hipóteses a validar

  • Finalidade exata da instrução “côté vue”
  • Perfil sociocultural do remetente
  • Existência de práticas semelhantes em outros envios do mesmo remetente

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

Interesse filatélico

Elevado, pela combinação de:

  • carimbo hexagonal
  • trânsito identificado
  • selo com utilização funcional complexa

Interesse curatorial

Muito elevado, destacando:

  • manipulação consciente do suporte
  • articulação entre norma postal e ação individual
  • forte densidade interpretativa

Raridade

  • Emissão comum
  • Peça incomum pela convergência de elementos técnicos e comportamentais

Potencial de estudo

Excecional para:

  • psicossociologia postal
  • materialidade do postal
  • performatividade dos regulamentos postais
  • práticas individuais de comunicação

7. REFERÊNCIAS (SUGERIDAS)

  • Regulamentos da União Postal Universal (c. 1900–1910)
  • Catálogos Mundifil / Afinsa – D. Carlos I tipo Mouchon
  • Estudos sobre circulação postal europeia pré‑Primeira Guerra

8. NOTAS METODOLÓGICAS

  • Leitura paleográfica confirmada com base nas tuas correções
  • Interpretação da anotação manuscrita apresentada como hipótese fundamentada
  • Sistema horário “IIV” não totalmente resolvido
  • A análise distingue rigorosamente evidência e interpretação

🔎 Nota curatorial final

Esta peça constitui um caso paradigmático de materialidade ativa do objeto postal, onde o remetente intervém simultaneamente ao nível:

  • técnico (colocação do selo),
  • gráfico (rasura do impresso),
  • e simbólico (instrução “timbre côté vue”),

transformando o bilhete-postal num verdadeiro artefacto híbrido entre norma postal e expressão individual.

Postal ilustrado representando as margens do rio Nabão em Tomar, circulado entre Lisboa e Terneuzen em outubro de 1906. A peça distingue-se pela aplicação pouco convencional do selo D. Carlos I, colocado entre as duas faces do cartão e validado por carimbos de diferentes administrações postais. A presença da anotação manuscrita “timbre côté vue”, a rasura deliberada de elementos impressos do formulário postal e a cadeia completa de carimbos de origem, trânsito e chegada fazem deste documento um testemunho singular da apropriação individual das normas postais durante a Belle Époque. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Bilhete postal ilustrado Salão dos Embaixadores do Palácio Real de Queluz (PT-BPI-1902-PAHPS)

 

Bilhete-postal ilustrado de Queluz, Portugal, representando o Salão dos Embaixadores do Palácio Real de Queluz. A imagem mostra o interior de uma sala cerimonial com ampla perspetiva axial, teto ricamente decorado com pintura ornamental, lustre central suspenso, portas simétricas e grandes janelas distribuídas ao longo das paredes laterais. Na margem superior encontra-se a legenda identificativa do local, enquanto a frente apresenta inscrição manuscrita e sinais de circulação postal. Peça filatélica e iconográfica que documenta a divulgação postal do património arquitetónico português. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado internacionalmente
Origem e destino: Lisboa (Portugal) → Nice (França)
Data(s):

Data manuscrita: 03.07.1902
Carimbo de partida: 04.07.1902 (Lisboa – Central)
Carimbo de chegada: 08.07.1902 (Nice – Arrivée)


Emissão filatélica associada:

D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis


Autor / Remetente / Destinatário:

Remetente: Cacy de Guimarães
Destinatário: Mme M. Scoffier
Morada: 13, rue Masséna, Nice, Alpes-Maritimes, França




2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA
Suporte e impressão

Cartão postal ilustrado em cartolina, impressão a preto e branco (fototipia)
Verso não dividido com inscrição tipográfica base:

“UNION POSTALE UNIVERSELLE – CARTE POSTALE”
“Côté réservé à l’adresse”



Modificações manuscritas/funcionais

A expressão “UNION POSTALE UNIVERSELLE” encontra-se rasurada
Presença da inscrição “imprimé” (manuscrita)

(Estes elementos são determinantes para análise funcional e curatorial — ver secção 3 e 5.)
Imagem (anverso)

Salão dos Embaixadores do Palácio Real de Queluz

Editor

F. A. Martins – Praça Luiz de Camões, 33, Lisboa
Série n.º 168

Selos

25 réis – D. Carlos I, tipo Mouchon
Cor vermelha
Obliteração por carimbo circular

Carimbos


Partida:

“LISBOA – CENTRAL”
04.07.1902
Preto, legível



Chegada:

“NICE / ARRIVÉE”
08.07.1902
Preto, aplicado na frente



Outros elementos manuscritos

“8/10” (canto superior esquerdo do anverso)
Texto descritivo inferior
Assinatura e data do remetente


3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA
3.1 Percurso postal
Circulação Lisboa–Nice em 4 dias (04–08.07.1902), dentro dos padrões da rede UPU.

3.2 Enquadramento tarifário

Franquia aplicada: 25 réis
Correspondente à tarifa internacional de carta simples


3.3 Interpretação funcional da rasura “UPU” e inscrição “imprimé”
Evidência observável:

Rasura explícita de “UNION POSTALE UNIVERSELLE”
Adição manuscrita de “imprimé”
Franquia de 25 réis (superior à tarifa de impresso)

Interpretação fundamentada:

A inscrição “imprimé” não produziu efeito tarifário, uma vez que:

a franquia aplicada corresponde a carta, não a impresso


A rasura da referência UPU sugere:

intervenção consciente sobre a natureza formal do objeto



Conclusão interpretativa (com prudência metodológica):


Estes elementos indicam mais plausivelmente:
→ prática de manipulação associada ao colecionismo ou ao uso social do postal,
do que tentativa funcional de redução de porte


Esta interpretação baseia-se na incompatibilidade entre:

inscrição “imprimé”
e valor efetivamente franqueado




3.4 Contexto histórico

Produção no auge da cartofilia europeia
Período de experimentação funcional dos suportes postais
Integração nos circuitos internacionais da UPU
Nice como destino burguês e turístico


3.5 Particularidades relevantes

Uso de tarifa de carta em bilhete-postal
Rasura deliberada de referência institucional (UPU)
Inserção de qualificador alternativo (“imprimé”) sem efeito postal
Estrutura seriada: “8/10”
Presença de carimbo de chegada bem definido


4. TRANSCRIÇÃO
Anverso

“Salon dus Embassadeurs, au Palais Royal de Queluz.”


“Cacy de Guimarães
3/7/02”


“8/10”


Verso

Mme M. Scoffier
13, rue Masséna
à Nice
Alpes-Maritimes
France


“imprimé” [manuscrito]


5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO
Factos

Postal circulado com tarifa de carta
Rasura da designação UPU
Adição manuscrita “imprimé”
Sequência “8/10”
Remetente identificado


Interpretação (distinguindo níveis)
Nível postal (formal)

O objeto foi tratado como carta simples internacional
A inscrição “imprimé” não teve efeito operacional no tratamento postal

Nível social e cultural

A rasura de “UPU” e a adição “imprimé” indicam:

manipulação consciente do objeto
possível apropriação subjetiva do suporte



Nível de colecionismo (hipótese fundamentada)

A prática pode refletir:

comportamento ligado ao colecionismo emergente de postais
experimentação simbólica com categorias postais
ou mesmo gestos de diferenciação/individualização do objeto



→ Importante:
Esta leitura é interpretativa, mas sustentada pela incoerência tarifária observada

Hipóteses a validar

Motivação exata da rasura (colecionismo vs jogo semiológico vs prática individual)
Identidade social de Cacy de Guimarães
Existência do conjunto completo (série 1–10)


6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL
Interesse filatélico
Elevado:

uso não standard de tarifa
circulação internacional documentada
intervenção manuscrita significativa

Interesse curatorial
Muito elevado — peça com múltiplas camadas:

postal como objeto postal
postal como objeto manipulado
postal como objeto de coleção

Raridade

Moderada como peça isolada
Elevada pela conjugação:

intervenção sobre UPU
sequência numerada
coerência narrativa



Potencial de estudo
Particularmente forte para:

psicossociologia postal
estudos de apropriação do objeto postal
história cultural do colecionismo


7. REFERÊNCIAS (SUGERIDAS)

Regulamentos da União Postal Universal (c. 1890–1905)
Catálogos Mundifil / Afinsa (D. Carlos I tipo Mouchon)
Literatura sobre cartofilia europeia inicial


8. NOTAS METODOLÓGICAS

Interpretação da rasura baseada em evidência material observável
Conclusão sobre colecionismo apresentada como hipótese fundamentada, não definitiva
Análise beneficiaria de comparação com outras peças da mesma série/remetente


🔎 Nota curatorial final (afinada)
Esta peça constitui um exemplo notável de tensão entre norma postal e apropriação individual, onde o postal deixa de ser apenas suporte regulamentado e passa a objeto manipulado — possivelmente no contexto emergente do colecionismo e da construção de narrativas pessoais em série.

Verso de bilhete-postal circulado, com área de mensagem manuscrita e endereço destinado a Nice, Alpes-Maritimes, França. O exemplar apresenta selo postal de 25 réis com efígie régia, carimbo de origem e carimbo de chegada, além da designação “Carte Postale” impressa. São visíveis linhas de endereçamento, marcas postais e elementos tipográficos próprios da correspondência ilustrada do período. Documento postal que preserva evidências materiais de circulação internacional e do uso dos serviços de correio associados ao bilhete-postal ilustrado. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


Bilhete postal "Floreira do novo hotel Bussaco (PT-BPI-1906-PAHPS-BUS)

Bilhete-postal ilustrado do Buçaco, Portugal, representando a denominada Floreira do Norte do Palácio do Buçaco. A composição apresenta uma estrutura arquitetónica de inspiração neomanuelina, com varanda elevada, colunas ornamentadas, arcos rendilhados em pedra e elementos decorativos esculpidos na fachada. Na parte inferior encontra-se a legenda identificativa “BUSSACO – (Portugal) – Floreira do no...”. O exemplar inclui mensagem manuscrita na frente, selo de 10 réis e marcas de circulação postal. Peça documental de interesse filatélico e iconográfico relacionada com a divulgação turística e patrimonial do Buçaco. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado (verso dividido)
  • Origem: Sintra (interpretação fundamentada a partir do carimbo expandido)
  • Destino: Terneuzen, Países Baixos
  • Data de expedição: 15/09/1906
  • Data de chegada: 19/09/1906
  • Emissão filatélica associada:
    • D. Carlos I, tipo Coroa, 10 réis (verde)
  • Remetente:
    • José Manuel da Silva Ferreira
    • Rua de S. Bento, n.º 510, r/c dto, Lisboa
  • Destinatário:
    • William Clepkens
    • Station Terneuzen
    • Países Baixos

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte:

    • Bilhete-postal ilustrado em papel cartonado
    • Verso dividido com fórmula UPU
    • Indicações multilingues
  • Ilustração:

    • Palace Hotel do Bussaco – “Floreira do novo Hotel”
  • Selo:

    • D. Carlos I, 10 réis, verde
    • Aplicado no anverso
  • Carimbos:

    1. Expedição (anverso):

      • Carimbo circular (leitura após ampliação)
      • Toponímia: Sintra
      • Data: 15 SET 06
    2. Chegada (verso):

      • Carimbo circular de duplo anel
      • “TERNEUZEN”
      • Indicação horária: “10 – IIV”
      • Data: 19 SEP 06

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

3.1. Percurso postal (documentado)

  • Sintra (15/09/1906) → Terneuzen (19/09/1906)
  • Duração: 4 dias

Dado objetivo: trânsito internacional ligeiramente mais demorado do que o exemplar de agosto (3 dias), mas perfeitamente dentro dos padrões normais da época.


3.2. Comparação cronológica com o primeiro postal

ElementoPostal 1Postal 2
Data expedição03/08/1906 (Lisboa)15/09/1906 (Sintra)
Data chegada06/08/190619/09/1906
Duração3 dias4 dias
OrigemLisboaSintra
MotivoBussaco – fachadaBussaco – detalhe

Conclusão sustentável: continuidade de correspondência ao longo de, pelo menos, 6 semanas.


3.3. Interpretação geográfica (elemento novo)

A expedição a partir de Sintra introduz um dado relevante:

  • o remetente (residente em Lisboa) envia a partir de outra localidade
  • sugere:
    • deslocação temporária
    • ou envio durante viagem/estadia

Hipótese fundamentada: o remetente poderá estar em circulação (turística ou outra), mantendo ativa a troca cartófila.


3.4. Lógica cartófila (reforço)

A série evidencia agora:

  • continuidade temporal
  • diversidade geográfica de expedição
  • coerência temática (Bussaco)

→ permitindo afirmar com forte grau de segurança:

Rede cartófila ativa, dinâmica e mantida ao longo do tempo.


3.5. Temporalidade e sociabilidade

A sequência agosto → setembro demonstra:

  • não se trata de troca pontual
  • mas de relação epistolar continuada

→ elemento central para análise prosopográfica


3.6. Eficiência postal

  • Lisboa → Terneuzen: 3 dias
  • Sintra → Terneuzen: 4 dias

Diferença mínima, indicando:

  • boa integração regional da rede postal
  • impacto logístico limitado da origem periférica

3.7. Marcofilia comparada (enriquecida)

A série passa a integrar:

  • carimbo Lisboa Central (hexagonal)
  • carimbo Sintra (circular)
  • carimbo Terneuzen (duplo anel com hora)

→ conjunto com elevado potencial para estudo comparativo:

  • níveis de rede postal (central vs local)
  • práticas de carimbo nacionais vs internacionais


4. TRANSCRIÇÃO

Verso (endereço)

  • “Monsieur
    William Clepkens
    Station Terneuzen
    Holland”

Indicações impressas

  • “Union Postale Universelle – Portugal”
  • “Carte Postale – Bilhete Postal”

Nota manuscrita

  • “Timbre au dos.”

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

5.1. Consolidação da rede cartófila

Com duas peças integralmente documentadas:

  • agosto (Lisboa)
  • setembro (Sintra)

→ temos já um segmento temporal mínimo consistente


5.2. Mobilidade do remetente

A mudança de local de expedição sugere:

  • mobilidade espacial
  • manutenção da prática de envio em contexto de deslocação

→ comportamento típico de colecionador ativo


5.3. Estrutura da relação

A correspondência apresenta:

  • estabilidade de destinatário
  • regularidade temporal
  • consistência temática

→ definição clara de:

relação cartófila bilateral estruturada


5.4. Valor para o teu modelo científico

Esta peça permite avançar para:

  • análise longitudinal
  • identificação de padrões de envio
  • integração em rede mais ampla (se existirem outros correspondentes)


6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse filatélico: Muito elevado

  • Valor diferencial:

    • percurso completo
    • integração numa série cronológica
  • Valor científico: Elevado

    • apto para estudo prosopográfico e relacional
  • Potencial expositivo: Excecional

    • permite narrativa de:
      • mobilidade
      • tempo postal
      • rede internacional


7. REFERÊNCIAS (INDICATIVAS)

  • Catálogos Afinsa / Mundifil – D. Carlos I
  • Estudos sobre circulação postal europeia (c. 1900)
  • Literatura sobre cartofilia internacional
  • Marcofilia portuguesa (Lisboa / Sintra)


8. NOTAS METODOLÓGICAS

  • Toponímia “Sintra” baseada em ampliação — considerada segura mas dependente de leitura ótica
  • Interpretação de mobilidade do remetente é fundamentada, mas não comprovada documentalmente
  • Integração em rede cartófila baseada em múltiplas peças confirmadas


SÍNTESE CURATORIAL (NÍVEL SUPERIOR)

Bilhete-postal expedido de Sintra (15.09.1906) para Terneuzen, integrado numa rede cartófila ativa entre José Manuel da Silva Ferreira (Lisboa) e William Clepkens (Países Baixos), evidenciando continuidade temporal, mobilidade do remetente e circulação internacional eficiente no início do século XX. 

Verso de bilhete-postal circulado com impresso da União Postal Universal e campos destinados à correspondência e ao endereço. O exemplar está endereçado a William Glover, em Terneuzen, na Holanda, apresentando carimbo postal de Queluz datado de setembro de 1906. São visíveis as linhas de endereçamento, anotações manuscritas e os elementos tipográficos próprios dos bilhetes-postais internacionais do início do século XX. Documento postal que conserva evidências materiais da circulação de correspondência ilustrada entre Portugal e os Países Baixos. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Bilhete-postal Lisboa-Terneuzen (1906): Palace Hotel do Bussaco e a Rede Cartófila Europeia - PT-BPI-1906-PAHPS-BUS

Bilhete-postal ilustrado do Buçaco, Portugal, representando a fachada do denominado Novo Hotel, integrado no conjunto arquitetónico do Palácio-Hotel do Buçaco. A imagem evidencia a arquitetura de inspiração neomanuelina, com galeria porticada de arcos rendilhados, torre angular ornamentada, pináculos decorativos e elementos escultóricos em pedra. O exemplar apresenta a legenda impressa “BUSSACO – (Portugal). Fachada do novo Hotel”, bem como selo postal de 10 réis e marca de circulação na frente. Documento iconográfico e filatélico relacionado com a divulgação turística e patrimonial do Buçaco através do bilhete-postal ilustrado. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete-postal ilustrado circulado (verso dividido)
  • Origem: Lisboa (Estação Central – 3.ª Secção)
  • Destino: Terneuzen, Países Baixos
  • Data de expedição: 03/08/1906
  • Data de redação: 04/08/1906
  • Data de chegada: 06/08/1906
  • Emissão filatélica associada:
    • D. Carlos I, Emissão de Portugal Continental, D. Carlos I (1895–1899) - 10 réis (verde)
  • Remetente:
    • José Manuel da Silva Ferreira
    • Rua de S. Bento, n.º 510, r/c dto, Lisboa
  • Destinatário:
    • William Clepkens
    • Station Terneuzen
    • Países Baixos

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte:

    • Bilhete-postal ilustrado em papel cartonado
    • Verso dividido com fórmulas UPU
  • Ilustração:

    • Palace Hotel do Bussaco
    • Legenda: “BUSSACO. – (Portugal). Fachada do novo Hotel.” (n.º 649)
  • Selo:

    • D. Carlos I, 10 réis, verde
    • Aplicado no anverso
  • Carimbos:

    1. Expedição (anverso):

      • Carimbo datado hexagonal
      • “Lisboa Central – 3.ª Secção”
      • Data: 03/08/1906
    2. Chegada (verso):

      • Carimbo circular de duplo anel
      • “Terneuzen” (leitura coerente com destino)
      • Indicação horária: “7–8V” (janela horária de distribuição)
      • Data: 06 AUG 06 (06/08/1906)
  • Outros elementos:

    • Inscrição “Salutations” no anverso
    • Mensagem manuscrita e identificação do remetente no verso

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

3.1. Percurso postal (reconstrução documentada)

  • Lisboa (03/08/1906) → Terneuzen (06/08/1906)
  • Duração total: 3 dias

Dado objetivo verificado: percurso internacional rápido, totalmente compatível com as redes postais europeias do início do século XX.

3.2. Interpretação do trânsito

  • Transporte muito provavelmente ferroviário e/ou combinado ferroviário-marítimo
  • Integração plena nas infraestruturas da UPU

(Nota metodológica: o modo de transporte específico não está documentado na peça; a interpretação baseia-se em práticas correntes da época.)

3.3. Cronologia e incongruência de datas

  • Expedição: 03/08/1906
  • Redação: 04/08/1906
  • Chegada: 06/08/1906

Avaliação crítica:

  • A presença do carimbo de chegada confirma a validade da data postal de expedição
  • A data manuscrita (04/08/1906) torna-se agora claramente:

Erro de datação pelo remetente (interpretação altamente provável)

3.4. Eficiência do serviço postal

O intervalo de 3 dias entre Lisboa e os Países Baixos evidencia:

  • elevada eficiência da rede postal internacional
  • sincronização eficaz entre serviços nacionais e estrangeiros
  • normalização de tempos de trânsito na Europa ocidental

3.5. Dimensão cartófila (reforçada)

A existência de:

  • múltiplos postais entre os mesmos intervenientes
  • envio internacional regular
  • escolha de imagens diferenciadas

permite afirmar com elevado grau de confiança:

Trata-se de uma troca cartófila estruturada e reiterada.

Esta peça funciona, assim, como:

  • unidade individual
  • e simultaneamente elemento de uma série relacional

3.6. Dimensão marcofílica

  • Associação de dois sistemas postais:
    • Lisboa (carimbo hexagonal urbano)
    • Terneuzen (carimbo circular de chegada com indicação horária)

→ relevante para estudos comparativos de:

  • tipologias de carimbo
  • organização do tratamento postal por países

4. TRANSCRIÇÃO

Frente

  • “Salutations.”

Verso

Endereço:

  • “Monsieur
    William Clepkens
    Station Terneuzen
    Holland”

Remetente:

  • “José Manuel da Silva Ferreira
    Rua de S. Bento 510 r/c dto
    Lisboa”

Mensagem:

  • Texto manuscrito com referência a Bussaco
  • Conteúdo breve (legibilidade parcial)

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

5.1. Documento de circuito postal completo

Esta peça adquire um valor acrescido decisivo por documentar:

Expedição + trânsito + chegada com datas verificáveis

→ situação particularmente relevante em história postal.

5.2. Rede cartófila internacional

A recorrência entre os intervenientes permite caracterizar:

  • relação de intercâmbio sistemático
  • integração em redes europeias de colecionadores

Sem evidência de:

  • instituição formal
  • associação organizada

→ trata-se, com elevada probabilidade, de uma rede informal de cartofilia

5.3. Temporalidade da comunicação

  • Tempo entre envio e receção: 3 dias
  • Comunicação quase “quase-imediata” para padrões do início do século XX

→ confirma a função do postal como:

  • meio rápido
  • suporte leve
  • instrumento de sociabilidade frequente

5.4. Valor metodológico (alinhado com o teu projeto)

Esta peça constitui um caso exemplar para:

  • análise prosopográfica
  • estudo de redes epistolares
  • modelização de fluxos de comunicação

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse filatélico: Muito elevado

    • percurso completo documentado
    • carimbos de origem e chegada identificáveis
    • intervenientes conhecidos
  • Valor científico: Elevado

    • objeto apto para análise relacional e longitudinal
  • Raridade:

    • elevada enquanto peça integrada numa série relacional documentada
  • Potencial expositivo: Excecional

    • eixo forte:

      “Circulação postal europeia (1900–1910): tempo, rede e sociabilidade”

       

7. REFERÊNCIAS (INDICATIVAS)

  • Catálogos Afinsa / Mundifil – D. Carlos I

8. NOTAS METODOLÓGICAS

  • O percurso postal plenamente comprovado por evidência material
  • A interpretação de troca cartófila baseia-se em corpus múltiplo no acervo
  • O modo de transporte permanece não documentado

SÍNTESE CURATORIAL (FINAL)

Bilhete-postal expedido de Lisboa (03.08.1906) por José Manuel da Silva Ferreira para William Clepkens (Terneuzen), integrado numa rede de troca cartófila internacional, com chegada documentada em 06.08.1906. Testemunho exemplar da eficiência postal europeia e das sociabilidades cartófilas do início do século XX.

Verso de bilhete-postal circulado com impresso da União Postal Universal, apresentando áreas distintas para correspondência e endereço. O exemplar encontra-se manuscrito e endereçado a William Cochrens, na estação de Terneuzen, Holanda. São visíveis carimbos postais de expedição e trânsito, bem como elementos tipográficos característicos dos bilhetes-postais internacionais do início do século XX. A peça conserva evidências materiais do percurso postal e da comunicação escrita por correio, constituindo uma fonte documental para o estudo da história postal e das redes internacionais de correspondência. Exemplar na coleção de Sérgio Pedro.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Sintra - Palácio da Pena / Edição Costa n.º 624 (PT-BPI-1904-PAHPS-SIN)

Bilhete-postal ilustrado de Sintra representando o Real Castello da Pena, atualmente conhecido como Palácio Nacional da Pena. A imagem apresenta uma vista geral do conjunto arquitetónico implantado sobre uma elevação densamente arborizada, destacando-se as muralhas, torres, cúpula de grandes dimensões e diferentes corpos edificados que caracterizam o monumento. Na margem superior encontra-se a legenda “REAL CASTELLO DA PENA, CINTRA”, sendo igualmente visíveis anotações manuscritas na frente do postal. Documento iconográfico destinado à divulgação de um dos mais reconhecidos marcos patrimoniais portugueses através do correio ilustrado. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Cintra / Sintra, Portugal

  • Destino: Rochefort (Charente‑Inférieure), França

  • Datas relevantes:

    • 22.09.1904 — data manuscrita

    • 22.09.1904 — carimbo de partida “Lisboa Gare”

    • 25.09.1904carimbo de chegada francês de duplo círculo “Type 04”

  • Emissão filatélica associada:

    • Selo D. Carlos I — tipo Mouchon, 25 réis carmim (Afinsa 141 / Mundifil 141), emissão de 1898

  • Remetente: Paul Aliseriz / Alizert (assinatura manuscrita; identidade não confirmada)

  • Destinatário: Monsieur Gazeau / Gazeaul, La Forêt, Rochefort (Charente‑Inférieure); identidade não confirmada

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal ilustrado, edição Costa, Rua do Ouro 295, Lisboa, n.º 624

  • Ilustração: Real Castello da Pena, Cintra — fotografia em sépia, vista panorâmica do palácio romântico sobre a serra

  • Selo:

    • 25 réis carmim, D. Carlos I tipo Mouchon, dentado 12½, impressão tipográfica

  • Carimbos:

    • Partida: Datador circular “CORREIO LISBOA GARE”, 22 SET 04, tinta preta, nítido

    • Chegada: Datador “ROCHEFORT-S-MER - CHARENTE-INF.RE”, 25 9 04, tinta preta, parcialmente legível

  • Outros elementos postais:

    • Impressão intacta: “UNION POSTALE UNIVERSELLE / PORTUGAL / BILHETE POSTAL”

    • Mensagem manuscrita vertical no anverso

    • Verso não dividido (regulamentar antes de 1906), reservado ao endereço

Verso de bilhete-postal circulado com impresso da União Postal Universal e espaços reservados para endereço e correspondência. O exemplar encontra-se endereçado a Rochefort, em França, apresentando selo português de 25 réis, carimbos postais de expedição e receção, bem como inscrições manuscritas efetuadas pelo remetente. São visíveis os elementos tipográficos característicos dos bilhetes-postais internacionais do início do século XX, incluindo a indicação de utilização do verso para a morada. Peça documental relevante para o estudo da história postal e das ligações internacionais estabelecidas através da correspondência ilustrada. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Percurso postal

O percurso Sintra → Lisboa → Rochefort segue o circuito habitual da correspondência internacional portuguesa no início do século XX. O datador de Lisboa Gare confirma a entrada na rede postal internacional no próprio dia do envio, com chegada a França três dias depois.

Enquadramento tarifário (UPU, 1904)

  • Carta internacional: 25 réis (até 20 g)

O franqueamento de 25 réis corresponde à tarifa de carta internacional, garantindo aceitação plena.

Particularidades relevantes

  • Estratégia postal implícita: O pagamento da tarifa de carta (25 réis) assegura que o postal circula sem risco de taxa adicional, independentemente do conteúdo manuscrito.

Identidade do remetente e destinatário (estado atual da investigação)

  • Remetente — Paul Aliseriz / Alizert: A assinatura é legível, mas não corresponde a nenhuma figura pública conhecida. Sem consulta a registos civis, listas de hóspedes ou diários de viagem de 1904, a identidade permanece hipotética.

  • Destinatário — Monsieur Gazeau / Gazeaul: A localização geográfica é clara (La Forêt, Rochefort), mas não é possível identificar o residente sem consultar os censos franceses de 1901 ou 1906. A identidade permanece não confirmada.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito)

Cintra, 22 (...) 1904. Bon souvenir de mon voyage. Paul Aliseriz [ou Alizert].

Verso (endereço)

Monsieur Gazeau, La Forêt, par Rochefort (Charente‑Inférieure), France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Este postal constitui um testemunho da circulação turística e epistolar entre Portugal e França no início do século XX. A escolha do Palácio da Pena — ícone do romantismo português — reforça o caráter de souvenir de viagem. A peça destaca‑se pelo franqueamento correto, pela ausência de rasuras e pela simplicidade da mensagem, refletindo uma utilização postal genuína e não colecionista. As identidades do remetente e destinatário permanecem não confirmadas, abrindo espaço para investigação genealógica e contextual sobre viajantes franceses em Portugal no período pré‑1906.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: elevado para coleções temáticas sobre Sintra, turismo romântico, circulação postal UPU e edições Costa

  • Raridade: moderada; postais turísticos de Sintra circulados para França são procurados

  • Potencial museológico: excelente para exposições sobre:

    • o postal ilustrado português pré‑1906

    • circulação internacional

    • práticas epistolares de viajantes estrangeiros em Portugal

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Lisboa: Igreja de São Vicente / Edição Costa n.º 345 (PT-BPI-1903-LIS-PAHPS)


1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1903-LIS-PAHPS)

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 29 de março de 1903 (data manuscrita e carimbo postal)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição Costa, n.º 345, Lisboa.

  • Ilustração: Fotografia da Igreja de São Vicente de Fora – Lisboa, em tons sépia, mostrando a fachada principal e as torres sineiras.

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, dentado 12½, impressão tipográfica.

  • Carimbo de partida: Datador hexagonal “LISBOA – CENTRAL”, 29.03.03, em preto, obliterando o selo.

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita no anverso; verso reservado ao endereço (postal de verso não dividido).


3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

  • Percurso postal: Lisboa → Nice, via rede internacional da UPU.

  • Enquadramento tarifário:

    • Tarifa internacional de carta/postal simples em 1903: 25 réis (até 20 g).

    • Tarifa de impresso: 5 réis por 50 g.

    • A UPU permitia até cinco palavras manuscritas de cortesia em impressos; o texto manuscrito no anverso excede esse limite, descaracterizando o objeto como impresso.

    • O remetente, consciente da distinção, franqueou corretamente com 25 réis, tarifa de carta internacional, apesar da menção “Imprimé”.

Particularidades de História Postal

  • Estratégia sistemática do remetente: O procedimento repetido ao longo de 1902–1903 — anular a fórmula regulamentar de bilhete postal, classificar o suporte visual como impresso, mas pagar o valor de carta — constitui uma solução técnica consciente.

  • Segurança na circulação: O remetente recorre a esta prática híbrida para contornar as restrições e as frequentes rejeições que as administrações postais estrangeiras (como a francesa) aplicavam aos novos postais ilustrados de edição privada quando circulavam na tarifa simples de 20 réis.

  • Resultado prático: Ao garantir o porteamento máximo de carta (25 réis), o utilizador assegurava que a sua correspondência pessoal estendida circulava sem entraves e sem o risco de ser multada com taxas de insuficiência à chegada.

  • Uso social e colecionista da designação “Imprimé”: A inscrição manuscrita “Imprimé” não deve ser interpretada como tentativa de beneficiar da tarifa reduzida de impressos, mas como prática corrente entre colecionadores e remetentes cultos da época, que utilizavam o termo como classificação informal do postal ilustrado. Esta convenção social e colecionista coexistia com o pagamento da tarifa de carta, servindo como etiqueta cultural que identificava o objeto como impresso ou ilustrado, sem implicação tarifária.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito):

Église de St Vincent à Lisbonne. Panthéon de la famille Royale. Cacy de Guimarães. 29.3.03.

Verso (endereço):

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

O postal exemplifica o intercâmbio epistolar franco‑português na viragem do século XX, materializado nas mensagens de Cacy Guimarães para Nice. A inscrição “Imprimé” revela uma tentativa de enquadramento formal como impresso, mas o franqueamento de 25 réis demonstra consciência das regras UPU e da necessidade de garantir circulação segura. A peça é um testemunho da adaptação inteligente dos utilizadores às normas postais, refletindo a transição entre o bilhete postal estatal e o postal ilustrado privado, e a forma como remetentes instruídos exploravam as margens regulamentares para assegurar o envio de correspondência pessoal sem penalizações. O uso da palavra “Imprimé” reforça o caráter cultural e colecionista da peça, evidenciando a prática comum entre filatelistas e viajantes de identificar os postais ilustrados como impressos, independentemente da tarifa aplicada — uma convenção que se tornou parte da linguagem postal informal da época.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: Elevado para coleções sobre tarifas UPU, postais ilustrados portugueses e arquitetura religiosa.

  • Raridade: Moderada; circulação internacional de postais turísticos portugueses com emissão Mouchon é menos frequente.

  • Potencial museológico: Excelente para exposição sobre estratégias de sobrefranqueamento e adaptação às normas UPU, e sobre a cultura colecionista dos postais ilustrados.

domingo, 14 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Lisboa: Basílica da Estrela / Edição F. A. Martins (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS-168)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 25 de dezembro de 1902 (data manuscrita) e 26 de dezembro de 1902 (carimbo de partida)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição F. A. Martins, Praça Luiz de Camões 33, Lisboa, n.º 168

  • Ilustração: Fotografia da Basílica da Estrela (Lisboa), em tons sépia

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim

  • Carimbo de partida: Datador “LISBOA – CENTRAL”, 26‑12‑02, em preto

  • Carimbo de chegada: Datador francês Type 15, metálico de coroa dupla, legenda “NICE / ARRIVÉE”, datado de 31‑12‑02

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita extensa no anverso; verso não dividido reservado ao endereço



3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Percurso postal

Lisboa → rede internacional UPU → Nice, com registo de chegada às 08:30 da manhã de 31‑12‑1902, conforme o datador Type 15.

Enquadramento tarifário (UPU, 1902)

  • Carta internacional: 25 réis por 15 g

  • Bilhete postal internacional: 20 réis

  • Impressos: 5 réis por 50 g

  • Regra UPU: impressos só podiam conter até cinco palavras manuscritas de cortesia.

O texto manuscrito no anverso excede amplamente esse limite, invalidando a tarifa de impresso.

Particularidades de História Postal (versão integrada)

1. Estratégia sistemática do remetente

Ao longo de 1902, Cacy Guimarães adota um procedimento repetido e consciente:

  • rasura a fórmula oficial “Bilhete Postal”,

  • escreve “Imprimé” no anverso,

  • mas paga sempre 25 réis, a tarifa máxima de carta internacional.

Este comportamento revela uma solução técnica deliberada para garantir circulação segura.

2. Segurança na circulação

Os postais ilustrados privados — ainda não plenamente regulamentados pela UPU — eram frequentemente:

  • recusados,

  • taxados,

  • ou devolvidos, sobretudo quando circulavam na tarifa simples de 20 réis.

Ao pagar 25 réis, o remetente neutralizava qualquer risco de insuficiência, assegurando aceitação imediata em França.

3. Resultado prático

O sobrefranqueamento:

  • legitimava o texto manuscrito extenso,

  • evitava marcas “T” de taxa,

  • e garantia distribuição sem entraves.

4. A indicação “Imprimé” como prática social e colecionista

Importante: a palavra “Imprimé” não deve ser interpretada como pedido de tarifa reduzida.

Entre 1898 e 1906, tornou‑se prática comum entre colecionadores e remetentes cultos:

  • escrever “Imprimé” como classificação informal do postal ilustrado,

  • independentemente da tarifa paga,

  • mesmo quando o conteúdo manuscrito excedia o permitido para impressos.

Assim, no contexto desta peça, “Imprimé” funciona como etiqueta cultural, não como instrução tarifária.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito)

Église du Sacré‑Cœur de Jésus, à Lisbonne. XVIIIᵉ siècle. Bonne année. Salutations distinguées. Cacy de Guimarães, Lisbonne, 25.12.02.

Verso (endereço)

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Este postal é um testemunho exemplar da adaptação dos utilizadores às normas postais internacionais na viragem do século XX. Cacy Guimarães demonstra domínio prático das regras UPU e das vulnerabilidades associadas aos postais ilustrados privados, criando uma peça híbrida: visualmente classificada como “impresso”, mas tarifada como carta.

A estratégia revela:

  • literacia postal avançada,

  • consciência das práticas francesas de fiscalização,

  • e uma abordagem pragmática para garantir circulação sem penalizações.

A peça ganha valor adicional quando integrada no conjunto de correspondência do mesmo remetente, que documenta a repetição sistemática desta técnica ao longo de 1902–1903.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: muito elevado — tarifas UPU, postais ilustrados portugueses, marcas francesas Type 15, práticas sociais de circulação

  • Raridade: elevada quando contextualizada como parte de um conjunto coerente

  • Potencial museológico: ideal para narrativas sobre:

    • transição do bilhete postal estatal para o postal ilustrado privado

    • estratégias de sobrefranqueamento

    • limites e ambiguidades das categorias UPU

sábado, 13 de junho de 2026

Bilhete postal ilustrado Lisboa: Nave central da Igreja dos Jerónimos - Belém / Edição Costa (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 11–12 de dezembro de 1902 (data manuscrita e carimbo postal)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição Costa, Rua do Ouro 295, Lisboa, n.º 215.

  • Ilustração: Fotografia da Nave Central da Igreja dos Jerónimos – Belém – Portugal, em tons sépia.

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, dentado 12½, impressão tipográfica.

  • Carimbo: Datador “LISBOA – CENTRAL – 4.ª SECÇÃO”, 12 DEZ 02, em preto, nítido.

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita no anverso; verso reservado ao endereço (postal de verso não dividido).



3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

  • Percurso postal: Lisboa → Nice, via rede internacional da UPU.

  • Enquadramento tarifário:

    • A tarifa internacional de carta/postal simples em 1902 era de 25 réis (até 20 g).

    • A tarifa de impresso era muito inferior (2½ réis por 50 g).

    • A UPU permitia que impressos contivessem até cinco palavras manuscritas de cortesia, além do endereço.

    • No entanto, neste postal, o texto manuscrito no anverso excede claramente esse limite, o que descaracteriza o objeto como impresso.

    • O remetente, consciente desta distinção, franqueou corretamente com 25 réis, tarifa de carta internacional, apesar de ter escrito “Imprimé”.

  • Contexto histórico:

    • Em 1902, os postais ilustrados ainda tinham verso exclusivamente para o endereço, sendo o anverso o único espaço disponível para mensagens.

    • A regra UPU das cinco palavras aplicava‑se ao conjunto do manuscrito não‑endereço, independentemente do lado onde fosse escrito.

  • Particularidades:

    • Caso exemplar de incongruência entre designação e tarifa, mas com franquia correta.

    • Demonstra a prática postal real: tolerância administrativa e confusão frequente entre “impresso” e “correspondência pessoal”.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito):

Intérieur du Monastère dos Jeronymos, à Lisbonne. XVI siècle. Bons souvenirs. Cacy de Guimarães, Lisbonne. 11.12.02.

Verso (endereço):

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

A peça ilustra de forma exemplar a aplicação prática da regra UPU das cinco palavras. Embora o remetente tenha inscrito “Imprimé”, o texto manuscrito no anverso ultrapassa amplamente o limite permitido para que o objeto fosse tratado como impresso.

O facto de ter sido aplicada a tarifa de carta internacional (25 réis) demonstra que o remetente compreendia a distinção tarifária, ainda que utilizasse a palavra “Imprimé” num sentido lato — como sinónimo de “postal ilustrado” ou “objeto impresso”, e não como categoria tarifária formal.

A peça é, portanto, um testemunho da tensão entre norma e prática, revelando como os utilizadores navegavam (e por vezes confundiam) as categorias postais da viragem do século XX.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: Elevado para coleções de história postal, tarifas UPU, postais ilustrados portugueses e iconografia dos Jerónimos.

  • Raridade: Moderada; o uso da emissão Mouchon em postais turísticos internacionais é menos frequente.

  • Potencial museológico: Excelente para painéis didáticos sobre:

    • a regra UPU das cinco palavras,

    • a evolução dos postais ilustrados,

    • a distinção entre impresso e carta.