domingo, 14 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Lisboa: Basílica da Estrela / Edição F. A. Martins (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS-168)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 25 de dezembro de 1902 (data manuscrita) e 26 de dezembro de 1902 (carimbo de partida)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição F. A. Martins, Praça Luiz de Camões 33, Lisboa, n.º 168

  • Ilustração: Fotografia da Basílica da Estrela (Lisboa), em tons sépia

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim

  • Carimbo de partida: Datador “LISBOA – CENTRAL”, 26‑12‑02, em preto

  • Carimbo de chegada: Datador francês Type 15, metálico de coroa dupla, legenda “NICE / ARRIVÉE”, datado de 31‑12‑02

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita extensa no anverso; verso não dividido reservado ao endereço



3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Percurso postal

Lisboa → rede internacional UPU → Nice, com registo de chegada às 08:30 da manhã de 31‑12‑1902, conforme o datador Type 15.

Enquadramento tarifário (UPU, 1902)

  • Carta internacional: 25 réis por 15 g

  • Bilhete postal internacional: 20 réis

  • Impressos: 5 réis por 50 g

  • Regra UPU: impressos só podiam conter até cinco palavras manuscritas de cortesia.

O texto manuscrito no anverso excede amplamente esse limite, invalidando a tarifa de impresso.

Particularidades de História Postal (versão integrada)

1. Estratégia sistemática do remetente

Ao longo de 1902, Cacy Guimarães adota um procedimento repetido e consciente:

  • rasura a fórmula oficial “Bilhete Postal”,

  • escreve “Imprimé” no anverso,

  • mas paga sempre 25 réis, a tarifa máxima de carta internacional.

Este comportamento revela uma solução técnica deliberada para garantir circulação segura.

2. Segurança na circulação

Os postais ilustrados privados — ainda não plenamente regulamentados pela UPU — eram frequentemente:

  • recusados,

  • taxados,

  • ou devolvidos, sobretudo quando circulavam na tarifa simples de 20 réis.

Ao pagar 25 réis, o remetente neutralizava qualquer risco de insuficiência, assegurando aceitação imediata em França.

3. Resultado prático

O sobrefranqueamento:

  • legitimava o texto manuscrito extenso,

  • evitava marcas “T” de taxa,

  • e garantia distribuição sem entraves.

4. A indicação “Imprimé” como prática social e colecionista

Importante: a palavra “Imprimé” não deve ser interpretada como pedido de tarifa reduzida.

Entre 1898 e 1906, tornou‑se prática comum entre colecionadores e remetentes cultos:

  • escrever “Imprimé” como classificação informal do postal ilustrado,

  • independentemente da tarifa paga,

  • mesmo quando o conteúdo manuscrito excedia o permitido para impressos.

Assim, no contexto desta peça, “Imprimé” funciona como etiqueta cultural, não como instrução tarifária.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito)

Église du Sacré‑Cœur de Jésus, à Lisbonne. XVIIIᵉ siècle. Bonne année. Salutations distinguées. Cacy de Guimarães, Lisbonne, 25.12.02.

Verso (endereço)

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Este postal é um testemunho exemplar da adaptação dos utilizadores às normas postais internacionais na viragem do século XX. Cacy Guimarães demonstra domínio prático das regras UPU e das vulnerabilidades associadas aos postais ilustrados privados, criando uma peça híbrida: visualmente classificada como “impresso”, mas tarifada como carta.

A estratégia revela:

  • literacia postal avançada,

  • consciência das práticas francesas de fiscalização,

  • e uma abordagem pragmática para garantir circulação sem penalizações.

A peça ganha valor adicional quando integrada no conjunto de correspondência do mesmo remetente, que documenta a repetição sistemática desta técnica ao longo de 1902–1903.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: muito elevado — tarifas UPU, postais ilustrados portugueses, marcas francesas Type 15, práticas sociais de circulação

  • Raridade: elevada quando contextualizada como parte de um conjunto coerente

  • Potencial museológico: ideal para narrativas sobre:

    • transição do bilhete postal estatal para o postal ilustrado privado

    • estratégias de sobrefranqueamento

    • limites e ambiguidades das categorias UPU

sábado, 13 de junho de 2026

Bilhete postal ilustrado Lisboa: Nave central da Igreja dos Jerónimos - Belém / Edição Costa (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1902-LIS-PAHPS)

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 11–12 de dezembro de 1902 (data manuscrita e carimbo postal)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição Costa, Rua do Ouro 295, Lisboa, n.º 215.

  • Ilustração: Fotografia da Nave Central da Igreja dos Jerónimos – Belém – Portugal, em tons sépia.

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, dentado 12½, impressão tipográfica.

  • Carimbo: Datador “LISBOA – CENTRAL – 4.ª SECÇÃO”, 12 DEZ 02, em preto, nítido.

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita no anverso; verso reservado ao endereço (postal de verso não dividido).



3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

  • Percurso postal: Lisboa → Nice, via rede internacional da UPU.

  • Enquadramento tarifário:

    • A tarifa internacional de carta/postal simples em 1902 era de 25 réis (até 20 g).

    • A tarifa de impresso era muito inferior (2½ réis por 50 g).

    • A UPU permitia que impressos contivessem até cinco palavras manuscritas de cortesia, além do endereço.

    • No entanto, neste postal, o texto manuscrito no anverso excede claramente esse limite, o que descaracteriza o objeto como impresso.

    • O remetente, consciente desta distinção, franqueou corretamente com 25 réis, tarifa de carta internacional, apesar de ter escrito “Imprimé”.

  • Contexto histórico:

    • Em 1902, os postais ilustrados ainda tinham verso exclusivamente para o endereço, sendo o anverso o único espaço disponível para mensagens.

    • A regra UPU das cinco palavras aplicava‑se ao conjunto do manuscrito não‑endereço, independentemente do lado onde fosse escrito.

  • Particularidades:

    • Caso exemplar de incongruência entre designação e tarifa, mas com franquia correta.

    • Demonstra a prática postal real: tolerância administrativa e confusão frequente entre “impresso” e “correspondência pessoal”.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito):

Intérieur du Monastère dos Jeronymos, à Lisbonne. XVI siècle. Bons souvenirs. Cacy de Guimarães, Lisbonne. 11.12.02.

Verso (endereço):

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

A peça ilustra de forma exemplar a aplicação prática da regra UPU das cinco palavras. Embora o remetente tenha inscrito “Imprimé”, o texto manuscrito no anverso ultrapassa amplamente o limite permitido para que o objeto fosse tratado como impresso.

O facto de ter sido aplicada a tarifa de carta internacional (25 réis) demonstra que o remetente compreendia a distinção tarifária, ainda que utilizasse a palavra “Imprimé” num sentido lato — como sinónimo de “postal ilustrado” ou “objeto impresso”, e não como categoria tarifária formal.

A peça é, portanto, um testemunho da tensão entre norma e prática, revelando como os utilizadores navegavam (e por vezes confundiam) as categorias postais da viragem do século XX.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: Elevado para coleções de história postal, tarifas UPU, postais ilustrados portugueses e iconografia dos Jerónimos.

  • Raridade: Moderada; o uso da emissão Mouchon em postais turísticos internacionais é menos frequente.

  • Potencial museológico: Excelente para painéis didáticos sobre:

    • a regra UPU das cinco palavras,

    • a evolução dos postais ilustrados,

    • a distinção entre impresso e carta.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Mirante na Quinta da Regaleira - Sintra (PT-BPI-1904-TCV-SIN-PAHPS-1114)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1904-TCV-SIN-PAHPS-1114)

  • Tipo de peça: Bilhete Postal Ilustrado (BPI) comercial, circulado internacionalmente
  • Origem e destino: Lisboa (Portugal) → Paris (França)
  • Data(s):
    • Redação: 27 de dezembro de 1904
    • Obliteração de partida: 28 de dezembro de 1904
  • Emissão filatélica associada:
    Emissão regular de D. Carlos I, tipo “Mouchon”, subtipo Novas Cores e Valores (a partir de 1899)
    • Mundifil n.º 141
  • Intervenientes:
    • Remetente: G. Gusermuth
    • Destinatárias: Mesdames Thérèse e Marguerite Pluche

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Caracterização do suporte:
    Cartão postal ilustrado em cartolina texturada, produção nacional, com chancela “Martins Editor – Lisboa”, série “1114 — Portugal”.
    Formulário padronizado da União Postal Universal, com face de endereço dividida

(“Martins Editor – Lisboa” refere-se à firma de Faustino António Martins, comerciante e filatelista lisboeta que, a partir de cerca de 1900, desenvolveu intensa atividade na edição e comercialização de bilhetes postais ilustrados. A designação “Martins Editor” é utilizada a partir de c. 1904, permitindo enquadrar cronologicamente a peça no período inicial da chamada “Idade de Ouro” do postal ilustrado em Portugal.)
  • Imagem:
    Vista da Torre (Mirante) da Quinta da Regaleira, Sintra, em fase inicial de difusão cartofílica.

  • Selo:

    • D. Carlos I, emissão Novas Cores e Valores (Afinsa 141)
    • Valor: 25 réis
    • Cor: carmim
    • Gravura: Louis-Eugène Mouchon
    • Uso isolado conforme tarifa
  • Carimbos:

    • Carimbo de partida:
      • “4.ª SECÇÃO / LISBOA CENTRAL / 28 12 04”
      • Formato quadrangular com cantos arredondados
      • Cor: preto
      • Legibilidade suficiente para identificação
  • Outros elementos:

    • Impressão “Union Postale Universelle – Portugal”
    • Endereço manuscrito em francês

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

  • Percurso postal:
    Expedição a partir de Lisboa Central,  seguindo depois via rede internacional da UPU para Paris.

  • Enquadramento tarifário:
    O porte de 25 réis corresponde à tarifa regulamentar de bilhete postal internacional no início do século XX.

  • Contexto histórico:

    • Consolidação da UPU como sistema de normalização postal
    • Forte circulação de postais ilustrados como veículo de comunicação turística
    • Sintra afirmava-se como destino internacional, com novos motivos iconográficos (Regaleira)

4. TRANSCRIÇÃO

Mensagem:
“Avec mes meilleurs souvenirs
G. Gusermuth”

Endereço:
“Mesdames Thérèse et Marguerite Pluche
52 Rue d’Amsterdam
Paris
France”

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

A peça enquadra-se de forma clara na prática consolidada do postal ilustrado internacional, articulando mensagem breve e representação visual de um destino turístico.

A utilização do francês corresponde simultaneamente à língua das destinatárias e ao padrão comunicacional dominante nas trocas postais internacionais da época.

A identificação do carimbo de Lisboa Central – 4.ª Secção como marca corrente permite uma leitura mais rigorosa da peça:

  • Não acrescenta raridade intrínseca
  • Mas confirma o percurso técnico e o enquadramento postal da expedição

Do ponto de vista iconográfico, o postal documenta um momento relativamente inicial da difusão da imagem da Regaleira, o que confere interesse sobretudo ao nível da história cultural e cartofílica, mais do que da marcofilia.

A eventual origem do remetente permanece indeterminada; a forma do nome sugere possível origem não portuguesa, hipótese que não pode ser confirmada com os dados disponíveis.

A identificação das destinatárias (“Mesdames Th. & M. Pluche”) encontra confirmação documental no Bulletin Monumental (1913), onde são referidas Mme Thérèse Pluche, Mlle Frédérique Pluche e Mlle Marguerite Pluche, associadas à morada de 52, rue d’Amsterdam (Paris, IXe) e ao château de Saint‑Ouen‑l’Aumône. [bulmo_0007...77_1_11651 | PDF]

Esta correspondência permite estabelecer, com elevado grau de fiabilidade, a identidade do núcleo familiar destinatário do postal.



quarta-feira, 10 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Sintra: Pórtico lateral do Palácio de Montserrat - Edição de F.A. Martins (PT-BPI-1904-TCV-PAHPS-SIN-713)

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1904-TCV-PAHPS-LIS)

  • Tipo de peça: Bilhete postal ilustrado circulado
  • Origem e destino: Lisboa (Portugal) → Montréjeau (Haute-Garonne), França
  • Data(s): 29-03-1904 (carimbo hexagonal de Lisboa Central)
  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo cifra, 10 réis (verde)
  • Autor/remetente/destinatário:
    • Remetente: Pierre de Brieu
    • Destinatária: Mademoiselle C. Brieu, Montréjeau, Garonne, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

(Sem alterações estruturais, integra-se o elemento relacional apenas na leitura)

  • Suporte: Bilhete postal ilustrado, cartolina, fototipia

  • Imagem: Sintra – Pórtico lateral nascente do Palácio de Monserrate

  • Editor: F. A. Martins (Lisboa), “Collection portugaise”, n.º 713

  • Selos:

    • 10 réis, D. Carlos I (tipo cifra)
  • Carimbos:

    • Hexagonal de Lisboa Central
    • Data: 29 MAR 1904
    • Cor: preto
  • Outros elementos postais:

    • Rasura manuscrita da designação “CARTE POSTALE / BILHETE POSTAL”
    • Endereço manuscrito completo
    • Ausência de marcas de taxa


3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Percurso postal

Expedido em Lisboa, apesar de ilustrar Sintra, o que reforça o padrão de circulação turística: aquisição em local turístico e envio a partir de um centro urbano principal (Lisboa).

Destino: Montréjeau (Haute-Garonne) — pequena localidade no sul de França, bem integrada na rede ferroviária, facilitando a receção de correio internacional.

Enquadramento relacional

A identificação de Pierre de Brieu (remetente) e Mlle C. Brieu (destinatária) permite inferir:

  • Relação familiar direta (hipótese mais plausível):
    • Possível correspondência entre parentes (ex.: irmão, pai ou outro familiar próximo)
  • Alternativa menos provável: relação conjugal informal ou parentesco alargado

👉 Importante:
Esta leitura é plausível mas não pode ser afirmada como facto sem documentação adicional.

Enquadramento tarifário e funcional

A conjugação de três elementos é fundamental:

  1. Selo de 10 réis (valor inferior à tarifa típica de bilhete postal internacional)
  2. Rasura da designação “Carte Postale / Bilhete Postal”
  3. Aceitação postal sem marca de taxa

👉 Interpretação integrada:

  • O remetente (Pierre de Brieu) poderá ter adotado uma estratégia consciente de reclassificação postal, tentando fazer passar o objeto como impresso ilustrado
  • Tal comportamento sugere:
    • familiaridade com práticas postais
    • preocupação com redução de custos

Contexto histórico

  • Início do século XX: auge da circulação de postais ilustrados
  • Intensificação das ligações culturais luso-francesas
  • Uso comum do francês como língua postal internacional
  • Práticas de “ajuste informal” ao sistema postal não eram incomuns, sobretudo em correspondência privada

Particularidades relevantes

  • Identificação simultânea de remetente e destinatário com o mesmo apelido
  • Rasura funcional com implicação postal (não meramente estética)
  • Indício de possível comportamento estratégico do utilizador postal
  • Integração de três níveis analíticos: social, postal e económico

4. TRANSCRIÇÃO

Mademoiselle C. Brieu
Montréjeau
Garonne
France

Remetente (face ilustrada):

Pierre de Brieu

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Esta peça evolui, com os novos dados, de um simples postal circulado para um objeto com interesse socio-postal acrescido.

Factos estabelecidos:

  • Correspondência entre indivíduos com o mesmo apelido (Brieu)
  • Expedição em Lisboa a 29-03-1904
  • Rasura explícita da designação postal
  • Franqueamento de 10 réis sem penalização visível

Hipóteses interpretativas:

  1. Relação familiar (mais plausível)

    • Postal enviado durante viagem ou estadia em Portugal
  2. Estratégia deliberada de otimização tarifária

    • Remetente intervém fisicamente no suporte para alterar o estatuto postal
  3. Aceitação postal tolerante

    • Correios aceitam o envio sem aplicação de taxa adicional

Elemento crítico de valorização

A conjugação entre:

  • identidade dos intervenientes
  • manipulação do suporte
  • franqueamento aparentemente reduzido

configura uma peça que ultrapassa o interesse meramente ilustrativo e entra no domínio da história social do uso do correio.

Aspetos que requerem validação

  • Natureza exata da relação entre Pierre de Brieu e C. Brieu
  • Regulamentação oficial portuguesa/UPU sobre validade da rasura
  • Tarifas aplicáveis a impressos internacionais em 1904

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: Elevado

    • História postal operacional
    • Práticas dos utilizadores
    • Circulação internacional luso-francesa
  • Grau de raridade:
    Moderado, com valorização qualitativa significativa

  • Potencial expositivo (FIP):
    Muito interessante para desenvolvimento de:

    • quadro temático sobre “uso e adaptação dos objetos postais”
    • subcapítulo sobre “comportamento dos remetentes face à tarifação”

terça-feira, 9 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Lisboa - Campo Pequeno / Praça de Touros (Edição Tabacaria Rocha S.R. 279) (PT-BPI-1908-TCV-LIS-PAHPS-279)



1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

  • Tipo de peça: Bilhete Postal Ilustrado (circulado internacionalmente).
  • Origem e destino: Lisboa (Portugal) para Elbeuf, Seine-Inférieure (França).
  • Data(s): 31 de Março de 1908 (data do manuscrito e do carimbo de partida).
  • Emissão filatélica associada: Selo da emissão regular de D. Carlos I (Desenho de Mouchon, Tipo "Continente", emissão iniciada em 1895 - Afinsa 130).
  • Autor/remetente/destinatário:
    • Editor do postal: S.R. — Lisboa (Tabacaria Rocha, Rua do Arsenal, n.º 98).
    • Remetente: Identificado pela assinatura como "Pires" (ou similar, no canto superior esquerdo do texto).
    • Destinatário: Monsieur M. Lequy, residente na 58 Rue de la Salutation, Elbeuf, França.
2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA
  • Caracterização do suporte: Cartão prensado fino de época, com impressão cromolitográfica (fotografia colorizada à mão) no anverso e estrutura tipográfica de "Bilhete Postal" regulamentada pela Union Postale Universelle no reverso. Reverso dividido horizontalmente (modelo pós-1905).
  • Selos: Um selo de 20 Réis, cor de fundo lilás/cinza sobre papel claro, apresentando a efígie do Rei D. Carlos I de perfil esquerdo.
  • Carimbos:
    • Carimbos:
      • Tipologia: Carimbo quadrado da rede urbana de Lisboa (com cantos cortados ou moldura geométrica de triagem).
      • Inscrições Legíveis: Topo: LISBOA CENTRAL | Centro-superior: AG. (Agência) | Centro: Datador 31 - 3 - 902 | Inferior: 3.ª SECÇÃO.
      • Cor e Legibilidade: Tinta preta oleosa, nitidez média-alta, permitindo leitura paleográfica.
    • Outros Elementos Postais: Inscrição manuscrita a tinta vermelha "Imprimé" (Impresso) no topo do verso, riscada a traço vermelho pelo próprio remetente. Indicação de fração "1/2" (em tinta vermelha) no canto superior esquerdo do verso. (1.º postal de um envio de 2 postais)
3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA
  • Interpretação do percurso postal: O objeto foi depositado na Estação Central de Lisboa a 31 de março de 1908, seguindo por via férrea (Sud-Express) através de Espanha até entrar em território francês, tendo como destino a comuna industrial têxtil de Elbeuf, na Normandia.
  • Enquadramento tarifário: O selo de 20 Réis cumpre rigorosamente a tarifa internacional em vigor na Convenção da U.P.U. para Bilhetes Postais com texto manuscrito até à reforma tarifária subsequente.
  • Contexto histórico: A peça circula precisamente dois meses após o Regicídio (1 de fevereiro de 1908), que vitimou o Rei D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe. O uso do selo com a efígie do monarca assassinado em pleno período de transição política (reinado de D. Manuel II) ilustra a normalidade do escoamento de stocks filatélicos nas estações de correio. O anverso imortaliza a Praça de Touros do Campo Pequeno (inaugurada em 1892), símbolo da expansão urbana de Lisboa para norte na viragem do século.
  • Particularidades relevantes: A prática de escrever legendas explicativas em francês no anverso era comum para contextualizar o monumento a colecionadores estrangeiros que participavam em circuitos de troca cartófila (cartophilie).
4. TRANSCRIÇÃO
Anverso (Impresso e Manuscrito)
  • Impresso (Topo Esquerdo): 279 — S. R. — LISBOA — Campo Pequeno — Praça de Touros
  • Manuscrito (Rodapé Esquerdo): Arène pour combats des taureaux
Reverso (Impresso)
  • Topo: Union Postale Universelle / PORTUGAL — BILHETE POSTAL
  • Campos: CORRESPONDENCIA / DIRECÇÃO — ADRESSE
Reverso (Texto Manuscrito)
"Lisbonne le 31 Mars 1908
Cher Monsieur,
Je viens de recevoir vos deux jolies cartes que je vous remercie beaucoup. Comme j’ai là, Rouen, deux correspondants chez Barabé Louis et Henri Charpentier, je vous prie de ne m'envoyer cartes de là, je vous serais reconnaissant de m’en envoyer des cartes de Lyon, Nantes, Bordeaux, Épernay, etc, et spécialement les types et costumes que j’aime beaucoup. De mon côté je ferai tout mon possible pour vous être agréable. À bientôt de vous lire. Tout à vous.
Pires"
  • Margem Esquerda (Manuscrito na vertical): Écrivez-moi par sélection S.V.P.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO
  • Leitura crítica: O texto revela de forma inequívoca o fenómeno da febre cartófila internacional da Belle Époque. Não se trata de uma missiva familiar ou de negócios, mas sim de uma transação organizada entre colecionadores de postais.
  • Factos vs. Hipóteses: É um facto que o remetente ("David Pires") já possuía parceiros de troca na região da Normandia (perto de Rouen) e pretendia diversificar a sua coleção com vistas de outras geografias francesas (Lyon, Nantes) e antropologia visual ("tipos e costumes"). É uma hipótese muito provável que o remetente utilizasse o francês como língua franca internacional de comunicação cartófila, uma prática padrão na época para intercâmbios na Europa.
  • Aspetos a validar: Seria necessário consultar o verso de outros postais da mesma série numerada da Tabacaria Rocha (Série 200) para confirmar se o lote 279 foi impresso em oficinas nacionais ou encomendado a gráficas alemãs (como a Stengel ou Knackstedt), algo muito frequente na produção de cartofilia portuguesa de alta qualidade deste período.
6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL
  • Interpretação para coleção/exposição: Peça com elevado interesse para coleções temáticas de História de Lisboa, Arquitetura Neo-árabe / Taurina, ou coleções de História do Colecionismo e da Cartofilia (pelo teor explícito da mensagem).
  • Grau de raridade: A série da Tabacaria Rocha com numeração vermelha fina é bastante procurada, e exemplares circulados internacionalmente com a mensagem integralmente focada nas regras de permuta de postais agregam valor documental.
  • Potencial de estudo: Excelente para ilustrar artigos ou capítulos sobre as redes de correspondentes postais no início do século XX e o papel dos quiosques e tabacarias de Lisboa (como a da Rua do Arsenal) como motores culturais e editoriais da cidade.