quinta-feira, 30 de julho de 2026

Carta Pé Filatélica para Newton, Gordon & Johnson com menção aos capitães Seton, Shaw, Cleaveland e aos navios Mary Ann e Alexander (1790) GB-CC-1790-LON-MAD

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

Tipo de peça
Carta comercial pré-filatélica manuscrita.

Origem
Saint Helens Road, Ilha de Wight, Inglaterra.

Destino
Messrs. Newton, Gordon & Johnson, Merchants, Madeira.

Data da carta
7 de março de 1790.

Data de receção anotada
1 de abril de 1790.

Emissão filatélica associada
Não aplicável (período pré-filatélico).

Remetente
John Shackleford.

Destinatário
Newton, Gordon & Johnson, comerciantes estabelecidos na Ilha da Madeira.


2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

Suporte

Carta manuscrita em papel dobrado, utilizada simultaneamente como correspondência e sobrescrito, segundo a prática corrente do final do século XVIII.

Franquia

Ausência de selo, tratando-se de correspondência anterior às reformas postais do século XIX.

Carimbos

Não se observam carimbos postais ou marcas oficiais de trânsito nas imagens disponíveis.

Marcas e anotações manuscritas

Sobrescrito

Endereço:

Messrs. Newton Gordon & Johnson
Merchts.
Madeira

Anotações de arquivo

London
the 7 March 1790
John Shackleford
Received 1 April
Answ.ᵈ 20 D.º 1790

Estas anotações aparentam corresponder a registos administrativos do destinatário, documentando a receção e posterior resposta à missiva.

Elementos comerciais mencionados

A carta menciona explicitamente:

  • os navios Mary Ann e Alexander;
  • os capitães Seton, Shaw e Cleaveland;
  • quatro marcas comerciais para identificação de barricas: HB, E P, MD e I F S.

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Interpretação do percurso postal

Evidência documental

A carta foi redigida em Saint Helens Road, Inglaterra, em 7 de março de 1790.

O texto informa que a correspondência seria transportada pelo Capitão Seton, comandante do navio Mary Ann, para entrega direta aos destinatários na Madeira.

Existe uma anotação de receção datada de 1 de abril de 1790.

Interpretação fundamentada

⚠️ A ausência de marcas postais sugere que a carta não circulou pela via postal formal, tendo sido confiada diretamente ao comandante de uma embarcação mercante, prática frequente na correspondência comercial internacional do século XVIII.

⚠️ O intervalo de cerca de 25 dias entre a redação e a receção é compatível com uma travessia marítima entre a costa sul de Inglaterra e a Ilha da Madeira.


Contexto marítimo complementar

Evidência documental

A carta menciona os navios Mary Ann e Alexander, bem como os capitães Seton, Shaw e Cleaveland.

Contexto documental externo

Uma carta comercial distinta conservada em coleçãoparticular e estudada por Hogshead Wine refere um navio denominado Alexander comandado pelo Capitão Reid (Captain Reid), envolvido no transporte de vinho da Madeira e correspondência mercantil por via privada.

Interpretação fundamentada

⚠️ A existência documentada de um navio Alexander comandado pelo Capitão Reid demonstra que esta designação era utilizada em circuitos comerciais ligados ao comércio do Vinho da Madeira na mesma época. Contudo, não existe atualmente evidência suficiente para afirmar que se trata do mesmo navio mencionado na carta de John Shackleford nem para estabelecer qualquer relação direta entre o Capitão Reid e os capitães citados no manuscrito.


Contexto histórico

A carta constitui um testemunho direto do comércio atlântico britânico em finais do século XVIII. O remetente encontrava-se em preparação para uma viagem à Jamaica e organizava previamente o fornecimento de vinho da Madeira para consumo pessoal e para posterior reexportação.

O texto evidencia a existência de uma rede logística internacional envolvendo Inglaterra, Madeira e Jamaica, articulada através de navios mercantes independentes.

Contexto económico

A correspondência documenta uma encomenda de:

  • três pipas de vinho da Madeira;
  • um hogshead de vinho velho para consumo na Jamaica. O remetente distingue claramente o vinho destinado à exportação para Inglaterra daquele que pretendia consumir durante a sua permanência nas Caraíbas.

A carta demonstra igualmente a utilização de crédito comercial internacional através da instrução:

"value yourselves as usual for the amount on my friend"

o que indica a liquidação da encomenda através de intermediário financeiro ou agente comercial.

Contexto institucional

A firma Newton, Gordon & Johnson era uma das mais importantes casas exportadoras de Vinho da Madeira do século XVIII. Em 1790 utilizava precisamente esta designação social, tendo posteriormente evoluído para Newton, Gordon, Murdoch & Co. e, mais tarde, para a histórica Cossart Gordon & Co.


4. TRANSCRIÇÃO

Sobrescrito

Messrs. Newton Gordon & Johnson
Merchts.
Madeira

Anotações de arquivo

London
the 7 March 1790
John Shackleford
Received 1 April
Answ.ᵈ 20 D.º 1790


Excerto principal do conteúdo

I wrote you a few days ago thinking to have been in time for Captain Cleaveland but I find he had sailed sooner than I expected... I therein desired you to send me by him three Pipes of the best particular Wine... one marked HB one E P the other marked MD ... also one Hogshead for my own use while I stay in Jamaica ... please to let this last be old Wine, the other may be new...


5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Factos observáveis

Carta comercial datada de 7 de março de 1790.

Remetente identificado como John Shackleford.

Destinada à firma Newton, Gordon & Johnson, na Madeira.

Solicita envio de vinho da Madeira.

Refere navios e capitães concretos envolvidos no transporte.

Possui registo de receção e resposta.

Utiliza marcas comerciais para identificação das mercadorias.

Interpretações fundamentadas

⚠️ A carta ilustra o funcionamento das redes mercantis britânicas que ligavam a Europa às Caraíbas.

⚠️ Parte do vinho destinava-se provavelmente a beneficiar do envelhecimento durante o transporte atlântico, prática associada ao prestígio do Vinho da Madeira.

⚠️ A correspondência constitui um exemplo de correio transportado por navio mercante fora dos circuitos postais oficiais.

Aspetos que requerem validação adicional

  • Identificação biográfica completa de John Shackleford.
  • Relação comercial específica entre Shackleford e Newton, Gordon & Johnson.
  • Identificação do agente financeiro referido na carta.
  • Determinação do valor económico da encomenda.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

Esta peça possui um valor curatorial excecional por reunir, num único documento, evidências diretas do comércio internacional do Vinho da Madeira, das redes mercantis britânicas e dos circuitos de circulação da correspondência comercial no Atlântico durante o final do século XVIII. A carta documenta uma operação concreta de encomenda e transporte de vinho, permitindo identificar intervenientes, mercadorias, percursos e mecanismos financeiros utilizados no comércio transatlântico da época.

Do ponto de vista da História Postal, constitui um testemunho relevante da circulação de correspondência transportada por capitães mercantes fora dos circuitos postais formais, prática frequente entre negociantes envolvidos no comércio oceânico. A ausência de marcas postais oficiais é compensada pela riqueza informativa do conteúdo, que permite reconstruir parcialmente a logística da operação comercial.

O documento apresenta ainda elevado interesse para a História Económica e para o estudo do património vitivinícola da Madeira. A encomenda distingue vinhos destinados ao consumo imediato de vinhos destinados a completar uma viagem atlântica antes do regresso à Inglaterra, ilustrando práticas comerciais associadas ao fenómeno do envelhecimento do Vinho da Madeira durante as travessias oceânicas. 

Particularmente relevante é a menção explícita aos capitães Cleaveland, Seton e Shaw, bem como aos navios mercantes Mary Ann e Alexander, elementos que testemunham uma rede atlântica operacional entre a Inglaterra, a Madeira e a Jamaica. Estas referências permitem contextualizar a carta no âmbito das ligações marítimas que sustentavam o comércio britânico no Atlântico e conferem ao documento um interesse acrescido para estudos de história marítima e de transportes. 

A identificação segura da firma destinatária, Newton, Gordon & Johnson, uma das mais importantes casas exportadoras de Vinho da Madeira do século XVIII e antecessora da atual Cossart Gordon & Co., reforça significativamente o valor documental da peça e a sua relevância para coleções especializadas em comércio atlântico, história empresarial e património vínico. 

Interesse filatélico

Elevado, pela sua natureza pré-filatélica e pelo contexto de circulação internacional.

Interesse marcofílico

Limitado, devido à ausência de marcas postais identificáveis.

Interesse histórico-postal

Muito elevado.

A peça documenta formas de transporte da correspondência comercial internacional antes da consolidação dos sistemas postais modernos.

Interesse documental

Excecional.

Trata-se de uma fonte primária contemporânea do comércio atlântico do século XVIII.

Interesse económico

Excecional.

Documenta práticas de encomenda, expedição, financiamento e comercialização do Vinho da Madeira.

Interesse de filatelia social

Muito elevado.

Permite estudar redes humanas, comerciais e marítimas que ligavam Europa, Atlântico e Caraíbas.

Interesse expositivo

Excecional.

Adequada para exposição em secções dedicadas a:

  • História Postal Marítima;
  • Comércio Atlântico;
  • Vinho da Madeira;
  • Redes mercantis britânicas;
  • Filatelia Social e História Económica.

Grau de raridade

⚠️ Indeterminado.

Contudo, a conjugação de:

  • destinatário histórico identificado;
  • conteúdo comercial completo;
  • referência a navios concretos;
  • datação pré-filatélica;

confere elevada relevância documental.

Potencial

Aspeto

Avaliação

Coleção especializada

Muito elevado

História Postal

Muito elevado

História Económica

Excecional

Exposição FIP

Muito elevado

Publicação científica

Excecional

Investigação futura

Muito elevado


7. SUGESTÃO DE TEXT ALT

Carta comercial pré-filatélica manuscrita enviada por John Shackleford para a firma Newton, Gordon & Johnson, comerciantes estabelecidos na Ilha da Madeira, datada de 7 de março de 1790. A correspondência, transportada por via marítima, contém instruções para a encomenda de pipas de Vinho da Madeira destinadas à Jamaica e posterior reexportação para Inglaterra. Conserva anotações contemporâneas de receção e resposta, constituindo um importante testemunho das redes do comércio atlântico e do comércio vinícola madeirense no século XVIII. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.


8. CODIFICAÇÃO

Código proposto

GB-CPR-1790-STH-MAD-WINE

Tabela explicativa

Bloco

Código

Significado

País de origem

GB

Grã-Bretanha

Tipo

CPR

Carta Pré-Filatélica

Ano

1790

Data da carta

Local de origem

STH

Saint Helens Road

Destino

MAD

Madeira

Tema

WINE

Comércio do Vinho da Madeira


9. REFERÊNCIAS

Fontes primárias

  • Carta comercial de John Shackleford para Newton, Gordon & Johnson, 7 de março de 1790. 
Fontes secundárias
  • Hancock, D. (2009). Oceans of Wine: Madeira and the Emergence of American Trade and Taste. Yale University Press.
  • Blandy, J. M., & Fernandes, C. (Eds.). (2001). The History of Madeira Wine. Blandy's Wine Lodge.
  • Mule, H. (1990). British Postal History. British Philatelic Trust.
  • Hogshead Wine. (2020, outubro 5). Anatomy of a Madeira letter recipient's address. Recuperado de https://hogsheadwine.wordpress.com/2020/10/05/anatomy-of-a-madeira-letter-recipients-address/

10. NOTAS METODOLÓGICAS

Limitações da análise

A presente ficha baseia-se na observação direta da peça e numa transcrição paleográfica praticamente integral do manuscrito, considerada atualmente muito próxima de uma leitura diplomática rigorosa. O conteúdo da carta apresenta elevada coerência interna, sendo possível identificar com segurança o remetente, o destinatário, a datação, os navios, os capitães mencionados, a natureza da encomenda e a lógica comercial subjacente.

Persistem apenas algumas questões de investigação que não decorrem de dificuldades de leitura do documento, mas da necessidade de aprofundamento histórico e prosopográfico dos intervenientes e das redes comerciais envolvidas. Entre estas incluem-se a identificação biográfica completa de John Shackleford, a caracterização das relações comerciais mantidas com a firma Newton, Gordon & Johnson e a eventual reconstrução documental dos percursos específicos dos navios referidos na correspondência.

Níveis de certeza

Evidência documental direta

  • Remetente: John Shackleford.
  • Destinatário: Newton, Gordon & Johnson, Merchants, Madeira.
  • Data da carta: 7 de março de 1790.
  • Receção registada em 1 de abril de 1790.
  • Pedido de três pipas de vinho e um hogshead de vinho velho.
  • Referência aos navios Mary Ann e Alexander e aos capitães Seton, Shaw e Cleaveland.
  • Utilização de marcas comerciais HB, EP, MD e IFS para identificação das mercadorias.

⚠️ Questões ainda em investigação

  • Biografia completa de John Shackleford.
  • Identificação do agente financeiro referido na operação.
  • Quantificação económica da encomenda.
  • Localização de documentação complementar da firma Newton, Gordon & Johnson.
  • Confirmação documental dos percursos exatos dos navios mencionados.
  • Identificação rigorosa do navio Alexander mencionado na carta.
  • Determinação do respetivo comandante e reconstrução do seu percurso comercial.
  • Verificação de eventual correspondência com o navio Alexander comandado pelo Capitão Reid referido noutras cartas madeirenses contemporâneas.