1.
IDENTIFICAÇÃO GERAL
Tipo de peça
Carta comercial pré-filatélica manuscrita.
Origem
Saint Helens Road, Ilha de Wight, Inglaterra.
Destino
Messrs. Newton, Gordon & Johnson, Merchants, Madeira.
Data da carta
7 de março de 1790.
Data de
receção anotada
1 de abril de 1790.
Emissão
filatélica associada
Não aplicável (período pré-filatélico).
Remetente
John Shackleford.
Destinatário
Newton, Gordon & Johnson, comerciantes estabelecidos na Ilha da Madeira.
2. DESCRIÇÃO
MATERIAL E FILATÉLICA
Suporte
Carta manuscrita
em papel dobrado, utilizada simultaneamente como correspondência e sobrescrito,
segundo a prática corrente do final do século XVIII.
Franquia
Ausência de selo,
tratando-se de correspondência anterior às reformas postais do século XIX.
Carimbos
Não se observam
carimbos postais ou marcas oficiais de trânsito nas imagens disponíveis.
Marcas e
anotações manuscritas
Sobrescrito
Endereço:
Messrs. Newton Gordon & Johnson
Merchts.
Madeira
Anotações de
arquivo
London
the 7 March 1790
John Shackleford
Received 1 April
Answ.ᵈ 20 D.º 1790
Estas anotações
aparentam corresponder a registos administrativos do destinatário, documentando
a receção e posterior resposta à missiva.
Elementos
comerciais mencionados
A carta menciona
explicitamente:
- os navios Mary Ann e Alexander;
- os
capitães Seton, Shaw e Cleaveland;
- quatro marcas comerciais para
identificação de barricas: HB, E ❥ P, MD e I
F ❥ S.
3. ANÁLISE
POSTAL E HISTÓRICA
Interpretação
do percurso postal
Evidência
documental
A carta foi
redigida em Saint Helens Road, Inglaterra, em 7 de março de 1790.
O texto informa
que a correspondência seria transportada pelo Capitão Seton, comandante do
navio Mary Ann, para entrega direta aos destinatários na Madeira.
Existe uma
anotação de receção datada de 1 de abril de 1790.
Interpretação
fundamentada
⚠️ A ausência de marcas postais sugere que a
carta não circulou pela via postal formal, tendo sido confiada diretamente ao
comandante de uma embarcação mercante, prática frequente na correspondência
comercial internacional do século XVIII.
⚠️ O intervalo de cerca de 25 dias entre a
redação e a receção é compatível com uma travessia marítima entre a costa sul
de Inglaterra e a Ilha da Madeira.
Contexto marítimo
complementar
Evidência documental
A carta menciona os navios Mary Ann e Alexander,
bem como os capitães Seton, Shaw e Cleaveland.
Contexto documental externo
Uma carta comercial distinta conservada em coleçãoparticular e estudada por Hogshead Wine refere um navio denominado Alexander
comandado pelo Capitão Reid (Captain Reid), envolvido no transporte de
vinho da Madeira e correspondência mercantil por via privada.
Interpretação fundamentada
⚠️ A existência documentada de um navio Alexander comandado pelo
Capitão Reid demonstra que esta designação era utilizada em circuitos
comerciais ligados ao comércio do Vinho da Madeira na mesma época. Contudo, não
existe atualmente evidência suficiente para afirmar que se trata do mesmo navio
mencionado na carta de John Shackleford nem para estabelecer qualquer relação
direta entre o Capitão Reid e os capitães citados no manuscrito.
Contexto
histórico
A carta constitui
um testemunho direto do comércio atlântico britânico em finais do século XVIII.
O remetente encontrava-se em preparação para uma viagem à Jamaica e organizava
previamente o fornecimento de vinho da Madeira para consumo pessoal e para posterior
reexportação.
O texto evidencia
a existência de uma rede logística internacional envolvendo Inglaterra, Madeira
e Jamaica, articulada através de navios mercantes independentes.
Contexto
económico
A correspondência
documenta uma encomenda de:
- três pipas de vinho da Madeira;
- um hogshead de vinho velho para
consumo na Jamaica. O remetente distingue claramente o vinho destinado à
exportação para Inglaterra daquele que pretendia consumir durante a sua
permanência nas Caraíbas.
A carta demonstra
igualmente a utilização de crédito comercial internacional através da
instrução:
"value yourselves as usual for the amount on my
friend"
o que indica a
liquidação da encomenda através de intermediário financeiro ou agente
comercial.
Contexto
institucional
A firma Newton,
Gordon & Johnson era uma das mais importantes casas exportadoras de Vinho
da Madeira do século XVIII. Em 1790 utilizava precisamente esta designação
social, tendo posteriormente evoluído para Newton, Gordon, Murdoch & Co. e,
mais tarde, para a histórica Cossart Gordon & Co.
4. TRANSCRIÇÃO
Sobrescrito
Messrs. Newton
Gordon & Johnson
Merchts.
Madeira
Anotações de
arquivo
London
the 7 March 1790
John Shackleford
Received 1 April
Answ.ᵈ 20 D.º 1790
Excerto principal do conteúdo
I wrote you a few days ago thinking to have been in time for
Captain Cleaveland but I find he had sailed sooner than I expected... I therein
desired you to send me by him three Pipes of the best particular Wine... one
marked HB one E ❥ P the other marked MD ... also
one Hogshead for my own use while I stay in Jamaica ... please to let this last
be old Wine, the other may be new...
5. COMENTÁRIO
INTERPRETATIVO
Factos
observáveis
✅ Carta comercial datada de 7 de março de
1790.
✅ Remetente identificado como John Shackleford.
✅ Destinada à firma Newton, Gordon &
Johnson, na Madeira.
✅ Solicita envio de vinho da Madeira.
✅ Refere navios e capitães concretos
envolvidos no transporte.
✅ Possui registo de receção e resposta.
✅ Utiliza marcas comerciais para
identificação das mercadorias.
Interpretações
fundamentadas
⚠️ A carta ilustra o funcionamento das redes
mercantis britânicas que ligavam a Europa às Caraíbas.
⚠️ Parte do vinho destinava-se provavelmente
a beneficiar do envelhecimento durante o transporte atlântico, prática
associada ao prestígio do Vinho da Madeira.
⚠️ A correspondência constitui um exemplo de
correio transportado por navio mercante fora dos circuitos postais oficiais.
Aspetos que requerem validação adicional
- Identificação biográfica completa de
John Shackleford.
- Relação comercial específica entre
Shackleford e Newton, Gordon & Johnson.
- Identificação do agente financeiro
referido na carta.
- Determinação do valor económico da
encomenda.
6. VALOR
FILATÉLICO E CURATORIAL
Esta peça possui
um valor curatorial excecional por reunir, num único documento, evidências
diretas do comércio internacional do Vinho da Madeira, das redes mercantis
britânicas e dos circuitos de circulação da correspondência comercial no
Atlântico durante o final do século XVIII. A carta documenta uma operação
concreta de encomenda e transporte de vinho, permitindo identificar
intervenientes, mercadorias, percursos e mecanismos financeiros utilizados no
comércio transatlântico da época.
Do ponto de vista
da História Postal, constitui um testemunho relevante da circulação de
correspondência transportada por capitães mercantes fora dos circuitos postais
formais, prática frequente entre negociantes envolvidos no comércio oceânico. A
ausência de marcas postais oficiais é compensada pela riqueza informativa do
conteúdo, que permite reconstruir parcialmente a logística da operação
comercial.
O documento
apresenta ainda elevado interesse para a História Económica e para o estudo do
património vitivinícola da Madeira. A encomenda distingue vinhos destinados ao
consumo imediato de vinhos destinados a completar uma viagem atlântica antes do
regresso à Inglaterra, ilustrando práticas comerciais associadas ao fenómeno do
envelhecimento do Vinho da Madeira durante as travessias oceânicas.
Particularmente
relevante é a menção explícita aos capitães Cleaveland, Seton e Shaw, bem como
aos navios mercantes Mary Ann e Alexander, elementos que testemunham uma rede
atlântica operacional entre a Inglaterra, a Madeira e a Jamaica. Estas
referências permitem contextualizar a carta no âmbito das ligações marítimas
que sustentavam o comércio britânico no Atlântico e conferem ao documento um
interesse acrescido para estudos de história marítima e de transportes.
A identificação segura da firma destinatária, Newton, Gordon & Johnson, uma das mais importantes casas exportadoras de Vinho da Madeira do século XVIII e antecessora da atual Cossart Gordon & Co., reforça significativamente o valor documental da peça e a sua relevância para coleções especializadas em comércio atlântico, história empresarial e património vínico.
Interesse
filatélico
Elevado, pela sua
natureza pré-filatélica e pelo contexto de circulação internacional.
Interesse marcofílico
Limitado, devido
à ausência de marcas postais identificáveis.
Interesse
histórico-postal
Muito elevado.
A peça documenta
formas de transporte da correspondência comercial internacional antes da
consolidação dos sistemas postais modernos.
Interesse
documental
Excecional.
Trata-se de uma
fonte primária contemporânea do comércio atlântico do século XVIII.
Interesse
económico
Excecional.
Documenta
práticas de encomenda, expedição, financiamento e comercialização do Vinho da
Madeira.
Interesse de
filatelia social
Muito elevado.
Permite estudar
redes humanas, comerciais e marítimas que ligavam Europa, Atlântico e Caraíbas.
Interesse
expositivo
Excecional.
Adequada para
exposição em secções dedicadas a:
- História
Postal Marítima;
- Comércio
Atlântico;
- Vinho
da Madeira;
- Redes
mercantis britânicas;
- Filatelia Social e História
Económica.
Grau de
raridade
⚠️ Indeterminado.
Contudo, a
conjugação de:
- destinatário
histórico identificado;
- conteúdo
comercial completo;
- referência
a navios concretos;
- datação
pré-filatélica;
confere elevada relevância documental.
Potencial
|
Aspeto |
Avaliação |
|
Coleção especializada |
Muito elevado |
|
História Postal |
Muito elevado |
|
História Económica |
Excecional |
|
Exposição FIP |
Muito elevado |
|
Publicação científica |
Excecional |
|
Investigação futura |
Muito elevado |
7. SUGESTÃO DE
TEXT ALT
Carta comercial
pré-filatélica manuscrita enviada por John Shackleford para a firma Newton,
Gordon & Johnson, comerciantes estabelecidos na Ilha da Madeira, datada de
7 de março de 1790. A correspondência, transportada por via marítima, contém
instruções para a encomenda de pipas de Vinho da Madeira destinadas à Jamaica e
posterior reexportação para Inglaterra. Conserva anotações contemporâneas de
receção e resposta, constituindo um importante testemunho das redes do comércio
atlântico e do comércio vinícola madeirense no século XVIII. Exemplar do
acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.
8. CODIFICAÇÃO
Código
proposto
GB-CPR-1790-STH-MAD-WINE
Tabela explicativa
|
Bloco |
Código |
Significado |
|
País de origem |
GB |
Grã-Bretanha |
|
Tipo |
CPR |
Carta Pré-Filatélica |
|
Ano |
1790 |
Data da carta |
|
Local de origem |
STH |
Saint Helens Road |
|
Destino |
MAD |
Madeira |
|
Tema |
WINE |
Comércio do
Vinho da Madeira |
9. REFERÊNCIAS
Fontes primárias
- Carta comercial de John Shackleford para Newton, Gordon & Johnson, 7 de março de 1790.
- Hancock, D. (2009). Oceans of Wine: Madeira and the Emergence of American Trade and Taste. Yale University Press.
- Blandy, J. M., & Fernandes, C. (Eds.). (2001). The History of Madeira Wine. Blandy's Wine Lodge.
- Mule, H. (1990). British Postal History. British Philatelic Trust.
- Hogshead Wine. (2020, outubro 5). Anatomy of a Madeira letter recipient's address. Recuperado de https://hogsheadwine.wordpress.com/2020/10/05/anatomy-of-a-madeira-letter-recipients-address/
10. NOTAS
METODOLÓGICAS
Limitações da
análise
A presente ficha
baseia-se na observação direta da peça e numa transcrição paleográfica
praticamente integral do manuscrito, considerada atualmente muito próxima de
uma leitura diplomática rigorosa. O conteúdo da carta apresenta elevada
coerência interna, sendo possível identificar com segurança o remetente, o
destinatário, a datação, os navios, os capitães mencionados, a natureza da
encomenda e a lógica comercial subjacente.
Persistem apenas
algumas questões de investigação que não decorrem de dificuldades de leitura do
documento, mas da necessidade de aprofundamento histórico e prosopográfico dos
intervenientes e das redes comerciais envolvidas. Entre estas incluem-se a identificação
biográfica completa de John Shackleford, a caracterização das relações
comerciais mantidas com a firma Newton, Gordon & Johnson e a eventual
reconstrução documental dos percursos específicos dos navios referidos na
correspondência.
Níveis de
certeza
✅ Evidência documental direta
- Remetente:
John Shackleford.
- Destinatário:
Newton, Gordon & Johnson, Merchants, Madeira.
- Data da carta: 7 de março de 1790.
- Receção registada em 1 de abril de
1790.
- Pedido de três pipas de vinho e um
hogshead de vinho velho.
- Referência aos navios Mary Ann
e Alexander e aos capitães Seton, Shaw e Cleaveland.
- Utilização de marcas comerciais HB, E❥P, MD e IF❥S
para identificação das mercadorias.
⚠️ Questões ainda em
investigação
- Biografia completa de John
Shackleford.
- Identificação do agente financeiro
referido na operação.
- Quantificação
económica da encomenda.
- Localização de documentação
complementar da firma Newton, Gordon & Johnson.
- Confirmação documental dos percursos
exatos dos navios mencionados.
- Identificação rigorosa do navio Alexander mencionado na carta.
- Determinação do respetivo comandante e reconstrução do seu percurso comercial.
- Verificação de eventual correspondência com o navio Alexander comandado pelo Capitão Reid referido noutras cartas madeirenses contemporâneas.


