segunda-feira, 15 de junho de 2026

Bilhete Postal Ilustrado Lisboa: Igreja de São Vicente / Edição Costa n.º 345 (PT-BPI-1903-LIS-PAHPS)


1. IDENTIFICAÇÃO GERAL (PT-BPI-1903-LIS-PAHPS)

  • Tipo de peça: Postal ilustrado circulado

  • Origem: Lisboa (Portugal)

  • Destino: Nice (França)

  • Data: 29 de março de 1903 (data manuscrita e carimbo postal)

  • Emissão filatélica associada: Selo D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, emissão de 1898 (Afinsa 141 / Mundifil 141)

  • Remetente: Cacy Guimarães (Lisboa)

  • Destinatário: Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, Nice, Alpes‑Maritimes, França

2. DESCRIÇÃO MATERIAL E FILATÉLICA

  • Suporte: Cartão postal impresso, edição Costa, n.º 345, Lisboa.

  • Ilustração: Fotografia da Igreja de São Vicente de Fora – Lisboa, em tons sépia, mostrando a fachada principal e as torres sineiras.

  • Selo: D. Carlos I, tipo Mouchon, 25 réis carmim, dentado 12½, impressão tipográfica.

  • Carimbo de partida: Datador hexagonal “LISBOA – CENTRAL”, 29.03.03, em preto, obliterando o selo.

  • Outros elementos: Indicação manuscrita “Imprimé”; mensagem manuscrita no anverso; verso reservado ao endereço (postal de verso não dividido).


3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

  • Percurso postal: Lisboa → Nice, via rede internacional da UPU.

  • Enquadramento tarifário:

    • Tarifa internacional de carta/postal simples em 1903: 25 réis (até 20 g).

    • Tarifa de impresso: 5 réis por 50 g.

    • A UPU permitia até cinco palavras manuscritas de cortesia em impressos; o texto manuscrito no anverso excede esse limite, descaracterizando o objeto como impresso.

    • O remetente, consciente da distinção, franqueou corretamente com 25 réis, tarifa de carta internacional, apesar da menção “Imprimé”.

Particularidades de História Postal

  • Estratégia sistemática do remetente: O procedimento repetido ao longo de 1902–1903 — anular a fórmula regulamentar de bilhete postal, classificar o suporte visual como impresso, mas pagar o valor de carta — constitui uma solução técnica consciente.

  • Segurança na circulação: O remetente recorre a esta prática híbrida para contornar as restrições e as frequentes rejeições que as administrações postais estrangeiras (como a francesa) aplicavam aos novos postais ilustrados de edição privada quando circulavam na tarifa simples de 20 réis.

  • Resultado prático: Ao garantir o porteamento máximo de carta (25 réis), o utilizador assegurava que a sua correspondência pessoal estendida circulava sem entraves e sem o risco de ser multada com taxas de insuficiência à chegada.

  • Uso social e colecionista da designação “Imprimé”: A inscrição manuscrita “Imprimé” não deve ser interpretada como tentativa de beneficiar da tarifa reduzida de impressos, mas como prática corrente entre colecionadores e remetentes cultos da época, que utilizavam o termo como classificação informal do postal ilustrado. Esta convenção social e colecionista coexistia com o pagamento da tarifa de carta, servindo como etiqueta cultural que identificava o objeto como impresso ou ilustrado, sem implicação tarifária.

4. TRANSCRIÇÃO

Anverso (manuscrito):

Église de St Vincent à Lisbonne. Panthéon de la famille Royale. Cacy de Guimarães. 29.3.03.

Verso (endereço):

Mme M. Scoffier, 13 rue Masséna, à Nice, Alpes‑Maritimes, France.

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

O postal exemplifica o intercâmbio epistolar franco‑português na viragem do século XX, materializado nas mensagens de Cacy Guimarães para Nice. A inscrição “Imprimé” revela uma tentativa de enquadramento formal como impresso, mas o franqueamento de 25 réis demonstra consciência das regras UPU e da necessidade de garantir circulação segura. A peça é um testemunho da adaptação inteligente dos utilizadores às normas postais, refletindo a transição entre o bilhete postal estatal e o postal ilustrado privado, e a forma como remetentes instruídos exploravam as margens regulamentares para assegurar o envio de correspondência pessoal sem penalizações. O uso da palavra “Imprimé” reforça o caráter cultural e colecionista da peça, evidenciando a prática comum entre filatelistas e viajantes de identificar os postais ilustrados como impressos, independentemente da tarifa aplicada — uma convenção que se tornou parte da linguagem postal informal da época.

6. VALOR FILATÉLICO E CURATORIAL

  • Interesse: Elevado para coleções sobre tarifas UPU, postais ilustrados portugueses e arquitetura religiosa.

  • Raridade: Moderada; circulação internacional de postais turísticos portugueses com emissão Mouchon é menos frequente.

  • Potencial museológico: Excelente para exposição sobre estratégias de sobrefranqueamento e adaptação às normas UPU, e sobre a cultura colecionista dos postais ilustrados.