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domingo, 11 de outubro de 2026

Carta Pré-Filatélica S.N.R. de Pereiro para Alcoutim (1834) - PT-CC-1834-ALCOUT

 


Datada de 3 de outubro de 1834, esta carta constitui um testemunho excecional da comunicação escrita, das redes de influência local e das práticas de segurança epistolar no Algarve liberal. Redigida em Pereiro por António José Madeira de Freitas e dirigida ao Vice-Provedor do Concelho de Alcoutim, a missiva alia relevância histórico-postal, documental e material. O suporte conserva a filigrana «LOUSAA 1832» e preserva evidências raramente observáveis do sistema original de letterlocking, incluindo aba de retenção encaixada, resíduos de adesivo interno e marcas da abertura histórica. O conjunto permite estudar simultaneamente o conteúdo da correspondência, a circulação postal e a materialidade física da comunicação no Portugal do século XIX.

 

1. IDENTIFICAÇÃO GERAL

Campo

Descrição

Tipo de peça

Carta pré-filatélica manuscrita dobrada

Origem

Pereiro, concelho de Alcoutim

Destino

Alcoutim

Data

3 de outubro de 1834

Sistema postal

Correio português pré-adesivo

Franquia

S.N.R.

Remetente

António José Madeira de Freitas

Destinatário

António Joaquim Pinto

Cargo do destinatário

Vice-Provedor do Concelho de Alcoutim

Natureza da correspondência

Particular, relacionada com questões patrimoniais e direitos de vizinhança


2. DESCRIÇÃO MATERIAL, SUPORTE E FILATÉLICA

Suporte

  • Papel vergé (laid paper) de fabrico manual.
  • Folha única utilizada simultaneamente como suporte da mensagem e invólucro postal.
  • Tinta castanha compatível com tinta ferrogálica oitocentista.
  • Marcas pronunciadas de dobragem correspondentes ao sistema original de encerramento.
  • Estado geral de conservação bom, com pequenas lacunas associadas à abertura histórica da carta.

Análise estrutural do papel

Evidência observável

  • Verjuras visíveis.
  • Pontuseus observáveis.
  • Estrutura compatível com produção artesanal em forma manual.

Metrologia

⚠️ A ausência de fotografia técnica calibrada em luz transmitida impede a medição rigorosa da distância entre pontuseus e da densidade das verjuras.

 

Filigrana

Identificação

LOUSAA 1832. No centro da folha junto à dobra central

Interpretação

A filigrana identifica um papel de produção portuguesa e constitui um importante elemento para o estudo da indústria papeleira nacional da década de 1830. A proximidade cronológica entre a data inscrita na filigrana e a utilização da folha reforça o interesse documental do exemplar.

Dados pendentes

⚠️ Não foi ainda possível determinar:

  • dimensões da filigrana;

 

Sistema de Fecho e Letterlocking

A carta conserva evidências materiais excecionais do seu sistema original de encerramento.

A observação conjunta da carta fechada e aberta demonstra que o documento não utilizava envelope independente. A própria folha foi dobrada para formar o invólucro postal.

O mecanismo de fecho compreendia:

  1. dobragem estruturada da folha;
  2. formação de uma aba secundária estreita;
  3. introdução dessa aba sob uma aba exterior de maiores dimensões;
  4. fixação através de material adesivo aplicado internamente entre as superfícies sobrepostas.

A análise da carta aberta mostra que a aba menor estava efetivamente encaixada sob a aba superior. Durante a abertura do documento ocorreu a ruptura parcial da aba de retenção, produzindo a lacuna atualmente observável.

Evidências observáveis

✅ Aba secundária preservada.

✅ Aba encaixada sob aba exterior.

✅ Rasgo produzido durante a abertura.

✅ Resíduos de material adesivo na zona interna da união.

✅ Transferência de fibras entre superfícies originalmente aderidas.

✅ Marcas estruturais compatíveis com letterlocking.

Material adesivo

Observam-se resíduos escurecidos concentrados na zona interna do fecho.

As microfotografias revelam:

  • agregados negros aderidos às fibras;
  • partículas compactas incrustadas no suporte;
  • distribuição associada às áreas de contacto entre as abas.

A evidência atualmente disponível sugere tratar-se de um adesivo interno envelhecido e oxidado, possivelmente de natureza orgânica (cola de amido, cola animal ou preparação adesiva equivalente).

⚠️ Não existe evidência suficiente para afirmar a utilização de lacre exterior tradicional.

Interpretação funcional

O sistema combinava retenção mecânica por encaixe da aba e reforço adesivo interno, permitindo:

  • manter a carta encerrada durante o transporte;
  • dificultar a leitura não autorizada;
  • denunciar qualquer tentativa de abertura.

Constitui um exemplo particularmente bem preservado das técnicas portuguesas de segurança epistolar da primeira metade do século XIX.

 

Elementos postais

Franquia

Inscrição manuscrita:

S.N.R.

Interpretada como referência à franquia do Serviço Nacional do Reino.

Fórmula protocolar

Inscrição:

Q.D.G.

Interpretada como abreviatura de “Que Deus Guarde”.

Endereçamento

Dirigida a:

António Joaquim Pinto, Vice-Provedor do Concelho de Alcoutim.

 

3. ANÁLISE POSTAL E HISTÓRICA

Percurso postal

A carta foi redigida em Pereiro e enviada para Alcoutim, inserindo-se numa rede de circulação local ou regional.

A utilização da franquia S.N.R. sugere enquadramento institucional associado ao destinatário, embora o conteúdo seja fundamentalmente privado.

 

Contexto histórico

O documento foi produzido poucos meses após a Convenção de Évora-Monte e a consolidação do regime liberal.

A correspondência testemunha uma sociedade em reorganização administrativa, onde continuavam a desempenhar papel central as redes pessoais de confiança entre membros das elites locais.

 

Conteúdo da carta

A missiva:

  • transmite votos de saúde ao destinatário e respetiva família;
  • relata a recuperação do remetente após doença grave;
  • aborda uma questão relacionada com a abertura de uma janela;
  • considera desnecessárias novas formalidades;
  • declara que a própria carta poderá servir de título comprovativo caso surjam litígios futuros.

 

História Material da Correspondência

O sistema de letterlocking constitui um dos aspetos mais relevantes da peça.

Ao contrário de muitos exemplares portugueses do mesmo período, esta carta preserva:

  • arquitetura geral das dobras;
  • mecanismo de retenção por aba encaixada;
  • resíduos do adesivo de fecho;
  • marcas produzidas pela abertura histórica.

Estas evidências permitem compreender não apenas como a carta circulou, mas também como foi efetivamente aberta pelo destinatário.

O exemplar documenta uma etapa da história da comunicação escrita anterior à generalização dos envelopes comerciais, quando a segurança dependia da engenharia das próprias dobras e da integridade do sistema de fecho.

 

Fabrico do Papel

A filigrana LOUSAA 1832 sugere utilização de papel português produzido poucos anos antes da redação da carta.

O suporte apresenta boa colagem superficial, reduzida difusão da tinta e excelente estabilidade estrutural após quase dois séculos de conservação.

 

4. TRANSCRIÇÃO DIPLOMÁTICA (EXCERTOS)

M.mo Amigo, e Senhor

Pereiro 3 de Outbro de 1834

Agora mesmo acabo de receber a sua muito estimada Carta de Ontem...

... mande abrir a Janela do modo, e tamanho, que quizer...

... esta mesma carta lhe podia servir de titulo.

Seu m.to am.o e l.to obrig.mo

António José Madeira de Freitas.

 

5. COMENTÁRIO INTERPRETATIVO

Factos observáveis

✅ Carta datada de 3 de outubro de 1834.

✅ Remetente identificado como António José Madeira de Freitas.

✅ Destinatário identificado como António Joaquim Pinto.

✅ Cargo de Vice-Provedor do Concelho de Alcoutim.

✅ Presença da franquia S.N.R.

✅ Filigrana LOUSAA 1832.

✅ Sistema de letterlocking preservado.

✅ Resíduos de adesivo interno.

✅ Rasgadura produzida pela abertura histórica.

 

Interpretações fundamentadas

⚠️ A questão discutida relaciona-se provavelmente com direitos de vizinhança ou servidões de vistas.

⚠️ A carta funcionava como garantia escrita de um compromisso assumido entre as partes.

⚠️ Os privilégios postais associados ao destinatário poderão ter facilitado a utilização da franquia S.N.R.

⚠️ O material negro preservado poderá corresponder a adesivo orgânico envelhecido e oxidado.

 

Aspetos que requerem validação adicional

  • Caracterização laboratorial do adesivo.
  • Estudo metrológico completo da filigrana.

 

6. VALOR FILATÉLICO, CURATORIAL E DOCUMENTAL

Interesse filatélico

Moderado.

Interesse marcofílico

Baixo.

Interesse histórico-postal

Muito elevado.

Interesse documental

Muito elevado.

Interesse para a história do papel

Muito elevado devido à presença da filigrana LOUSAA 1832.

Interesse para os estudos de letterlocking

Elevado.

A peça preserva simultaneamente:

  • mecanismo de retenção;
  • aba encaixada;
  • adesivo original;
  • zona de ruptura;
  • sequência parcial de abertura.

São características raramente observáveis em correspondência portuguesa do período.

Potencial expositivo FIP

Excelente para:

  • História Postal;
  • História Social;
  • Administração Local;
  • Cultura Material da Correspondência;
  • Papel e Filigranas;
  • Estudos de Letterlocking.

Grau de raridade

Invulgar a raro.

A conjugação de:

  • filigrana identificada;
  • protagonistas identificados;
  • franquia S.N.R.;
  • conteúdo histórico contextualizado;
  • sistema de letterlocking preservado;

atribui à peça interesse muito superior ao de uma carta pré-filatélica comum.

 

7. SUGESTÃO DE ALT TEXT

Carta pré-filatélica portuguesa datada de 3 de outubro de 1834, enviada de Pereiro para Alcoutim por António José Madeira de Freitas e dirigida ao Vice-Provedor António Joaquim Pinto. Manuscrito em papel vergé de fabrico manual com filigrana LOUSAA 1832, apresentando franquia S.N.R., dobras originais de circulação e sistema de letterlocking preservado. Conserva aba de retenção encaixada, resíduos de adesivo interno e marcas da abertura histórica do mecanismo de fecho. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro.

 

8. CODIFICAÇÃO

PRT-CPP-1834-PEREIRO-SNR-LETTERLOCKING

Bloco

Código

Significado

País

PRT

Portugal

Tipo

CPP

Carta Pré-Filatélica

Ano

1834

Data da peça

Localidade

PEREIRO

Local de origem

Tema

SNR-LETTERLOCKING

Franquia administrativa e sistema de fecho

 

9. REFERÊNCIAS E CATÁLOGOS

História Postal

  • Vieira, Armando. História do Correio Português.
  • Sequeira Lopes, Luís. Introdução à História Postal Portuguesa.

Filigranas

  • Bernstein - The Memory of Paper.

Letterlocking

  • Dambrogio, Jana et al. Letterlocking: A Locked Letter and the History of Written Communication.
  • Unlocking History Research Group.
  • MIT Libraries Letterlocking Project.

História Local e Biográfica

  • Investigação relativa a António José Madeira de Freitas e António Joaquim Pinto.

 

10. NOTAS METODOLÓGICAS

✅ Evidência documental

  • Data: 3 de outubro de 1834.
  • Local: Pereiro.
  • Remetente: António José Madeira de Freitas.
  • Destinatário: António Joaquim Pinto.
  • Cargo de Vice-Provedor.
  • Franquia S.N.R.
  • Filigrana LOUSAA 1832.
  • Aba de retenção encaixada.
  • Resíduos de adesivo interno.
  • Evidências materiais de letterlocking.
  • Rasgadura produzida pela abertura histórica.

⚠️ Interpretação histórica

  • Utilização privada de privilégio de franquia.
  • Natureza jurídica exata da autorização concedida.
  • Composição química do adesivo.
  • Reconstrução completa da sequência original das dobras.

Nível global de confiança

Muito elevado para identificação histórica, postal e paleográfica.

Muito elevado para a existência e funcionamento geral do sistema de letterlocking.

Médio para a identificação da composição exata do material adesivo utilizado no fecho.