Datada de 3 de
outubro de 1834, esta carta constitui um testemunho excecional da comunicação
escrita, das redes de influência local e das práticas de segurança epistolar no
Algarve liberal. Redigida em Pereiro por António José Madeira de Freitas e
dirigida ao Vice-Provedor do Concelho de Alcoutim, a missiva alia relevância
histórico-postal, documental e material. O suporte conserva a filigrana «LOUSAA
1832» e preserva evidências raramente observáveis do sistema original de
letterlocking, incluindo aba de retenção encaixada, resíduos de adesivo interno
e marcas da abertura histórica. O conjunto permite estudar simultaneamente o
conteúdo da correspondência, a circulação postal e a materialidade física da
comunicação no Portugal do século XIX.
1. IDENTIFICAÇÃO GERAL
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Campo |
Descrição |
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Tipo de peça |
Carta
pré-filatélica manuscrita dobrada |
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Origem |
Pereiro, concelho de Alcoutim |
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Destino |
Alcoutim |
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Data |
3 de outubro de 1834 |
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Sistema postal |
Correio português pré-adesivo |
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Franquia |
S.N.R. |
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Remetente |
António José
Madeira de Freitas |
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Destinatário |
António Joaquim Pinto |
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Cargo do destinatário |
Vice-Provedor
do Concelho de Alcoutim |
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Natureza da correspondência |
Particular,
relacionada com questões patrimoniais e direitos de vizinhança |
2. DESCRIÇÃO
MATERIAL, SUPORTE E FILATÉLICA
Suporte
- Papel vergé (laid paper) de fabrico
manual.
- Folha única utilizada simultaneamente
como suporte da mensagem e invólucro postal.
- Tinta castanha compatível com tinta
ferrogálica oitocentista.
- Marcas pronunciadas de dobragem
correspondentes ao sistema original de encerramento.
- Estado geral de conservação bom, com
pequenas lacunas associadas à abertura histórica da carta.
Análise
estrutural do papel
Evidência
observável
- Verjuras
visíveis.
- Pontuseus
observáveis.
- Estrutura compatível com produção
artesanal em forma manual.
Metrologia
⚠️ A ausência de fotografia técnica
calibrada em luz transmitida impede a medição rigorosa da distância entre
pontuseus e da densidade das verjuras.
Filigrana
Identificação
LOUSAA 1832.
No centro da folha junto à dobra central
Interpretação
A filigrana
identifica um papel de produção portuguesa e constitui um importante elemento
para o estudo da indústria papeleira nacional da década de 1830. A proximidade
cronológica entre a data inscrita na filigrana e a utilização da folha reforça
o interesse documental do exemplar.
Dados pendentes
⚠️ Não foi ainda possível determinar:
- dimensões
da filigrana;
Sistema de
Fecho e Letterlocking
A carta conserva
evidências materiais excecionais do seu sistema original de encerramento.
A observação
conjunta da carta fechada e aberta demonstra que o documento não utilizava
envelope independente. A própria folha foi dobrada para formar o invólucro
postal.
O mecanismo de
fecho compreendia:
- dobragem
estruturada da folha;
- formação de uma aba secundária
estreita;
- introdução dessa aba sob uma aba
exterior de maiores dimensões;
- fixação através de material adesivo
aplicado internamente entre as superfícies sobrepostas.
A análise da
carta aberta mostra que a aba menor estava efetivamente encaixada sob a aba
superior. Durante a abertura do documento ocorreu a ruptura parcial da aba de
retenção, produzindo a lacuna atualmente observável.
Evidências
observáveis
✅ Aba secundária preservada.
✅ Aba encaixada sob aba exterior.
✅ Rasgo produzido durante a abertura.
✅ Resíduos de material adesivo na zona
interna da união.
✅ Transferência de fibras entre superfícies
originalmente aderidas.
✅ Marcas estruturais compatíveis com
letterlocking.
Material
adesivo
Observam-se
resíduos escurecidos concentrados na zona interna do fecho.
As microfotografias revelam:
- agregados negros aderidos às fibras;
- partículas compactas incrustadas no
suporte;
- distribuição associada às áreas de
contacto entre as abas.
A evidência
atualmente disponível sugere tratar-se de um adesivo interno envelhecido e
oxidado, possivelmente de natureza orgânica (cola de amido, cola animal ou
preparação adesiva equivalente).
⚠️ Não existe evidência suficiente para
afirmar a utilização de lacre exterior tradicional.
Interpretação
funcional
O sistema
combinava retenção mecânica por encaixe da aba e reforço adesivo interno,
permitindo:
- manter a carta encerrada durante o
transporte;
- dificultar a leitura não autorizada;
- denunciar qualquer tentativa de
abertura.
Constitui um
exemplo particularmente bem preservado das técnicas portuguesas de segurança
epistolar da primeira metade do século XIX.
Elementos
postais
Franquia
Inscrição
manuscrita:
S.N.R.
Interpretada como
referência à franquia do Serviço Nacional do Reino.
Fórmula
protocolar
Inscrição:
Q.D.G.
Interpretada como
abreviatura de “Que Deus Guarde”.
Endereçamento
Dirigida a:
António Joaquim
Pinto, Vice-Provedor do Concelho de Alcoutim.
3. ANÁLISE
POSTAL E HISTÓRICA
Percurso
postal
A carta foi
redigida em Pereiro e enviada para Alcoutim, inserindo-se numa rede de
circulação local ou regional.
A utilização da
franquia S.N.R. sugere enquadramento institucional associado ao destinatário,
embora o conteúdo seja fundamentalmente privado.
Contexto
histórico
O documento foi
produzido poucos meses após a Convenção de Évora-Monte e a consolidação do
regime liberal.
A correspondência
testemunha uma sociedade em reorganização administrativa, onde continuavam a
desempenhar papel central as redes pessoais de confiança entre membros das
elites locais.
Conteúdo da
carta
A missiva:
- transmite votos de saúde ao
destinatário e respetiva família;
- relata a recuperação do remetente
após doença grave;
- aborda uma questão relacionada com a
abertura de uma janela;
- considera
desnecessárias novas formalidades;
- declara que a própria carta poderá
servir de título comprovativo caso surjam litígios futuros.
História
Material da Correspondência
O sistema de
letterlocking constitui um dos aspetos mais relevantes da peça.
Ao contrário de
muitos exemplares portugueses do mesmo período, esta carta preserva:
- arquitetura
geral das dobras;
- mecanismo de retenção por aba
encaixada;
- resíduos do adesivo de fecho;
- marcas produzidas pela abertura
histórica.
Estas evidências
permitem compreender não apenas como a carta circulou, mas também como foi
efetivamente aberta pelo destinatário.
O exemplar
documenta uma etapa da história da comunicação escrita anterior à generalização
dos envelopes comerciais, quando a segurança dependia da engenharia das
próprias dobras e da integridade do sistema de fecho.
Fabrico do
Papel
A filigrana
LOUSAA 1832 sugere utilização de papel português produzido poucos anos antes da
redação da carta.
O suporte
apresenta boa colagem superficial, reduzida difusão da tinta e excelente
estabilidade estrutural após quase dois séculos de conservação.
4. TRANSCRIÇÃO
DIPLOMÁTICA (EXCERTOS)
M.mo Amigo, e
Senhor
Pereiro 3 de
Outbro de 1834
Agora mesmo
acabo de receber a sua muito estimada Carta de Ontem...
... mande
abrir a Janela do modo, e tamanho, que quizer...
... esta mesma
carta lhe podia servir de titulo.
Seu m.to am.o
e l.to obrig.mo
António José
Madeira de Freitas.
5. COMENTÁRIO
INTERPRETATIVO
Factos
observáveis
✅ Carta datada de 3 de outubro de 1834.
✅ Remetente identificado como António José
Madeira de Freitas.
✅ Destinatário identificado como António
Joaquim Pinto.
✅ Cargo de Vice-Provedor do Concelho de
Alcoutim.
✅ Presença da franquia S.N.R.
✅ Filigrana LOUSAA 1832.
✅ Sistema de letterlocking preservado.
✅ Resíduos de adesivo interno.
✅ Rasgadura produzida pela abertura
histórica.
Interpretações
fundamentadas
⚠️ A questão discutida relaciona-se
provavelmente com direitos de vizinhança ou servidões de vistas.
⚠️ A carta funcionava como garantia escrita
de um compromisso assumido entre as partes.
⚠️ Os privilégios postais associados ao
destinatário poderão ter facilitado a utilização da franquia S.N.R.
⚠️ O material negro preservado poderá
corresponder a adesivo orgânico envelhecido e oxidado.
Aspetos que
requerem validação adicional
- Caracterização
laboratorial do adesivo.
- Estudo metrológico completo da
filigrana.
6. VALOR
FILATÉLICO, CURATORIAL E DOCUMENTAL
Interesse
filatélico
Moderado.
Interesse
marcofílico
Baixo.
Interesse
histórico-postal
Muito elevado.
Interesse
documental
Muito elevado.
Interesse para
a história do papel
Muito elevado
devido à presença da filigrana LOUSAA 1832.
Interesse para
os estudos de letterlocking
Elevado.
A peça
preserva simultaneamente:
- mecanismo
de retenção;
- aba
encaixada;
- adesivo
original;
- zona
de ruptura;
- sequência
parcial de abertura.
São
características raramente observáveis em correspondência portuguesa do período.
Potencial
expositivo FIP
Excelente
para:
- História
Postal;
- História
Social;
- Administração
Local;
- Cultura
Material da Correspondência;
- Papel
e Filigranas;
- Estudos
de Letterlocking.
Grau de raridade
Invulgar a raro.
A conjugação de:
- filigrana
identificada;
- protagonistas
identificados;
- franquia
S.N.R.;
- conteúdo
histórico contextualizado;
- sistema
de letterlocking preservado;
atribui à peça
interesse muito superior ao de uma carta pré-filatélica comum.
7. SUGESTÃO DE
ALT TEXT
Carta
pré-filatélica portuguesa datada de 3 de outubro de 1834, enviada de Pereiro
para Alcoutim por António José Madeira de Freitas e dirigida ao Vice-Provedor
António Joaquim Pinto. Manuscrito em papel vergé de fabrico manual com
filigrana LOUSAA 1832, apresentando franquia S.N.R., dobras originais de
circulação e sistema de letterlocking preservado. Conserva aba de retenção
encaixada, resíduos de adesivo interno e marcas da abertura histórica do
mecanismo de fecho. Exemplar do acervo do Museu de Filatelia Sérgio
Pedro.
8. CODIFICAÇÃO
PRT-CPP-1834-PEREIRO-SNR-LETTERLOCKING
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Bloco |
Código |
Significado |
|
País |
PRT |
Portugal |
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Tipo |
CPP |
Carta Pré-Filatélica |
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Ano |
1834 |
Data da peça |
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Localidade |
PEREIRO |
Local de origem |
|
Tema |
SNR-LETTERLOCKING |
Franquia
administrativa e sistema de fecho |
9. REFERÊNCIAS E CATÁLOGOS
História Postal
- Vieira, Armando. História do
Correio Português.
- Sequeira Lopes, Luís. Introdução à
História Postal Portuguesa.
Filigranas
- Bernstein
- The Memory of Paper.
Letterlocking
- Dambrogio,
Jana et al. Letterlocking: A Locked Letter and the History of Written
Communication.
- Unlocking
History Research Group.
- MIT
Libraries Letterlocking Project.
História Local e Biográfica
- Investigação relativa a António José
Madeira de Freitas e António Joaquim Pinto.
10. NOTAS METODOLÓGICAS
✅ Evidência documental
- Data: 3 de outubro de 1834.
- Local:
Pereiro.
- Remetente: António José Madeira de
Freitas.
- Destinatário: António Joaquim Pinto.
- Cargo de Vice-Provedor.
- Franquia S.N.R.
- Filigrana
LOUSAA 1832.
- Aba
de retenção encaixada.
- Resíduos
de adesivo interno.
- Evidências
materiais de letterlocking.
- Rasgadura produzida pela abertura
histórica.
⚠️ Interpretação histórica
- Utilização privada de privilégio de
franquia.
- Natureza jurídica exata da
autorização concedida.
- Composição
química do adesivo.
- Reconstrução completa da sequência
original das dobras.
Nível global de
confiança
Muito elevado
para identificação histórica, postal e paleográfica.
Muito elevado
para a existência e funcionamento geral do sistema de letterlocking.
Médio para a
identificação da composição exata do material adesivo utilizado no fecho.
